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Mostrando postagens de Outubro, 2012

João Rosa de Castro - Adeuses

CABOCLA
Conceição não era feia. Conceição não era freda, Conceição não era imaculada não. Deixou epitáfio para dizer que sabia Não só viver como morrer feliz. Dizia assim: “Morri, morri Para que alguém melhor que eu nascesse.”
Conceição não era pedra. Conceição era suave Como uma mulher Que se propõe A acordar sorrindo, A levantar para o primeiro dia.
Conceição era super high-tech Se juntava com moleques E ouvia rock ‘n’ roll.
Conceição me abraçou Naquela noite de adeus E me deixou como eu sou, Não arrancou nada de mim.
Amanhã será memória Que toma o peito como o perfume E vai desaparecendo

João Rosa de Castro - Adeuses

SONETO (a João Paulo Feliciano Magalhães)
Eu julgarei qual nunca hei julgado, Ao som deste computer registrando, Pois que vivi contente e implorando, O pão que nas alturas me hás negado.
Notei que o celular tinha tocado, Que o business é que estava te guiando, E era a fome o que vinha me tomando, Pedi para não morrer insaciado.
Agora veja só meu veredicto Eu sou o agadê com as imagens Arquivo dos seus erros nesta esfera.
Aqui não há o dito e o não dito, Veremos se farás lindas viagens Ou sairás para sempre desta terra…!

João Rosa de Castro - Adeuses

PLURAL
Não dá mais tempo para faz-de-contas em meio ao tráfego, Não vou oxítono pedir licença para entrar. Que ouçam as vozes que proliferam do meu silêncio E reverberam com a luz elétrica, paredes. Somado eu fico, parte da vida que flui no mundo. Como uma faixa de fuso horário rondando um mapa. Eu não lhe peço que me liberte ou que me amasse Ou diga nomes que tornem vivos os meus desejos, Mas duas vozes que se entrelaçam fazem ouro Que o lastro régio dessa conversa segue e acumula. Exibo a força com a coragem que em vão perdera Por que no meio do povo seja tudo plural…

João Rosa de Castro - Adeuses

A TESTEMUNHA DO TEMPO
A testemunha do tempo, mecânico tempo, Teve vergonha do que vira na cidade, sombria cidade. Foi ao parque, foi ao banco, foi à feira. Teve mulheres, Amou as mulheres, Odiou as mulheres, Encontrou as mulheres nos braços de astronautas.
Não aprendeu a viver, Não aprendeu a orgia filosófica Que de longe se assistia nas janelas.
Ficava na sala, dizendo com o teclado O que os antigos só diziam com beijos. O que os antigos só diziam com beijos.
E uma bala de revólver, anatômico revólver, Procurava sua testa.
A testemunha do tempo não sabia mais Como desenhar o mundo no seu pensamento. Teve receio do que vira no espelho, geográfico espelho.
Mas ninguém quis saber o que vivera. Fez anotações e redigiu ensaios em vão.
A testemunha do tempo podia ter sido apenas homem…