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Mostrando postagens de Abril, 2013

João Rosa de Castro - Alma Nua

SEGUNDA NATUREZA
O que vejo nos seus olhos E o que pressinto Desse ar que você expira E com ele espalha Partículas de você Na eternidade.
(É engraçado vislumbrar o ar tal qual mistura ou solução para o mal que diminui; esse mal que nem mesmo percebemos)
O que sinto pelo toque dos seus dedos, Seu riso irônico, Seu desdém, Porque vivemos no mesmo mundo,  No mesmo tempo, E talvez você quisesse saber-se só, Levemente só, Divinamente, Inebriadamente só.
É uma vontade de “invisibilidade que mostra” Como se você pudesse sentir um pouco Ou talvez bastante de mim no espaço vazio. Assim como aprendi a sentir você Tão intensamente, Na grande solidão dos desencontros.

João Rosa de Castro - Alma Nua

DRAMA NATURAL

O céu quebra os telhados
Para contemplar os viventes.

O céu, voyeur sedutor
Com suas cores
E as estrelas
E a lua e sua face dúbia.

O céu e sua promessa de infinitude.
Seus trovões em trágico anúncio.
Suas tempestades em ira.

O céu insiste também no silêncio,
Insiste também no azul.
Cenário de astros tão vivos E nuvens para a hora de pudor.

João Rosa de Castro - Alma Nua

AS MIL E UMA MORTES

E se eu morrer de repente, sem que ao menos espere
E encontrar uma floresta em que cantem os pássaros?
Ou quiçá virá um anjo com asas e boas vindas.
Ou uma bruxa vai dizer que já estava me esperando.
Ou vou despertar dum sono que dormia em outra parte.
Ou visão caleidoscópica dos olhos dalgum inseto
Me façam ver este mundo dum modo tão colorido.
Ou flashes do que fizera para ver se eu me arrependo
Do quanto chamam pecado, de tudo que chamo crime.
Ou veja o meu pai sorrindo com uma expressão, um afago.
Ou fosse no fundo um pássaro que enviasse meu pensamento.
Ou então uma serpente que me amasse tão distante.
Ou o filho de uma tribo com a mesma consciência.
Ou o ardor do próprio fogo queimando-me morto e vivo
Na dor prometida e eterna, que não conhece o alívio.
Ou não vou ter nem memória: nascer novamente infante.
Ou vou vagar numa noite que não conhece o dia.
Ou duma anestesia vou acordar distante
Como se até à morte tudo isto fosse um sonho.
Ou no meu próprio túmulo continuarei pensa…

João Rosa de Castro - Alma Nua

MAL NOVO

Surge repentino, explode no seu pensamento o nome da doença que matou seus heróis: Heterofobia.Heterofobia. Segue-se uma gargalhada: - Heterofobia - Heterofobia.
- Isso não se confunde, antes se distingue, é misoginia.
- Não, doutora, não. As mulheres, em si, encantam e satisfazem. Os homens, em si, alegram e saciam. O problema é quando se unem. O amor é a causa. O ódio ao amor é o primeiro sintoma
- Mas isso deve ser inveja do casal.
- Não, doutora, não é não. Invejar é não querer que o outro seja feliz. Mas os homens e as mulheres juntos não são felizes. A raiz desse mal novo é a consciência da infelicidade contagiosa. O risco de se contaminar. O heterófobo tem arrepios ao ver o casal de mãos dadas, rumo a uma desgraça certa.
- Mas “ele” também existe a partir dessa relação. Isso parece pulsão de morte. Essa figura sofre antes de biofobia, que é um mal antigo.
- Mas se os homens se beijassem, isso entristeceria o biófobo, mas alegraria o heterófobo. A doutora está evadindo à doenç…