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Mostrando postagens de Fevereiro, 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

PARA ALÉM DO SIM, DO NÃO E DO TALVEZ
Os sinos dobrarampara um chamado não atendido.
Que bom seria purificar mais uma alma. Abrandar um pequeno e duro coração. Vejo o que está atrás do amor E fecho os olhos e tapo os ouvidos. Já não cedo ao sussurro mais suave Nem ao perfume que invade as narinas, Convidando para os sonhos mais coloridos e primaveris. Meu olhar corta mais fundo que uma faca E eu nem sonhava em olhar para baixo, Cuspindo nos medos, nos castigos efêmeros e eternos, Nos fantasmas, nas mentiras sem arte, que paralisam seus escravos.
Os sinos dobraram Para uma redenção desperdiçada. O jeito é se acostumar com as pessoas aos avessos, Escondendo arduamente a sua beleza
E guardando-a para nunca mais.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

POEMA SECRETO
(“Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pr’ocultar...”)
Agora ela era a heroína E seu cavalo não dizia nada. Seu caubói perdido, Qual o amante no primeiro grande amor, Expulsou-a do espetáculo Certo de que a trocaria, Naquela tarde imensa, Por uma tiete qualquer.
Não podendo demonstrar, Forçada a esconder, Suas lágrimas copiosas... (Mais uma vez! Mais uma vez, meu deus!) ...ela teve a coragem De transformá-las num doce sorriso E traduzi-las, depois, numa imensa tempestade, Que despertou o caubói no meio da noite.
Ele procurara-a contrito entre as gentes Que o ouviam extasiadas.
Mas a heroína negara-lhe o brilho e o perfume – havia partido. Talvez para mais tarde, Talvez para nunca mais.
Parecia que o chão do palco lhe faltava. Parecia que em tudo o que dissesse mentia. Faltava-lhe a saliva pra dizer. Teve de imaginar a heroína ao seu lado, atrás de si, diante de si, pra fazer um grande show. Imaginar apenas... (Mais uma vez! Mais uma vez, meu deus!)
...Quantas vezes teria…

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

HARDWARE, SOFTWARE E RAPADURA
O astronauta da periferia Sempre abandona o lar.
O astronauta é hardware, É software e rapadura. Vive juntando Nietzsche e Axle Rose, Incitando beijos impossíveis. Nunca fala de namoradas, Seu negócio é coturno e crucifixo. Esteve em Marte ainda ontem Pra instalar um engenho de garapa. Nunca se sabe de que gostam os marcianos.
O astronauta de Perdizes Conhece o cortiço e a favela. Sempre abandona a mãe Pra ver se ela se apaixona, com saudade. Chega súbito, de madrugada E entra pela janela. Quando tudo está trancado, Dorme em cima da casa, Contando as estrelas no alto E soltando gases pros que estão embaixo.
O astronauta do Belenzinho Só faz amigos perdidos. Quem quer que se conserve Odeia-o à primeira vista. As raízes da escória Cresceram nele todo. É o avesso do avesso do avesso.
O astronauta da periferia É mais prático do que o homem mais raso E mais intenso do que o mais profundo. Sai de casa num foguete E volta de bicicleta.
O astronauta da periferia
Sempre abandona o lar.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

VIAGENS E ANESTESIA   (a Thiago) Dubai, Meus pés descalços Transmitiam para o chão Um calor humano, Demasiado humano.
Havai, As ondas do meu pensamento Eram mais altas Do que as do mar.
Rio de Janeiro, Meus amigos sempre pediam Pra eu ficar Mais e mais.
São Paulo, Acabei com a dor De todos os anos De um amigo, Com apenas um germânico Gemido numa sala escura.
São Francisco, Cores e camisetas apertadas Me convidavam Para colorir outras paragens.
Parati, Vi veleiros sobre o mar Acenando para mim.
Egito, Descobri Que fui eu mesmo Em toda a parte.
Munique, Onde todos os dias Da minha vida São contados.
Alto mar, À deriva, Sou amor puro
E livre paixão.