domingo, 23 de fevereiro de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

PARA ALÉM DO SIM, DO NÃO E DO TALVEZ

Os sinos dobrarampara um chamado não atendido.
Que bom seria purificar mais uma alma.
Abrandar um pequeno e duro coração.
Vejo o que está atrás do amor
E fecho os olhos e tapo os ouvidos.
Já não cedo ao sussurro mais suave
Nem ao perfume que invade as narinas,
Convidando para os sonhos mais coloridos e primaveris.
Meu olhar corta mais fundo que uma faca
E eu nem sonhava em olhar para baixo,
Cuspindo nos medos, nos castigos efêmeros e eternos,
Nos fantasmas, nas mentiras sem arte, que paralisam seus escravos.

Os sinos dobraram
Para uma redenção desperdiçada.
O jeito é se acostumar com as pessoas aos avessos,
Escondendo arduamente a sua beleza

E guardando-a para nunca mais.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

POEMA SECRETO

(“Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pr’ocultar...”)

Agora ela era a heroína
E seu cavalo não dizia nada.
Seu caubói perdido,
Qual o amante no primeiro grande amor,
Expulsou-a do espetáculo
Certo de que a trocaria,
Naquela tarde imensa,
Por uma tiete qualquer.

Não podendo demonstrar,
Forçada a esconder,
Suas lágrimas copiosas...
(Mais uma vez!
Mais uma vez, meu deus!)
...ela teve a coragem
De transformá-las num doce sorriso
E traduzi-las, depois, numa imensa tempestade,
Que despertou o caubói no meio da noite.

Ele procurara-a contrito entre as gentes
Que o ouviam extasiadas.

Mas a heroína negara-lhe o brilho e o perfume – havia partido.
Talvez para mais tarde,
Talvez para nunca mais.

Parecia que o chão do palco lhe faltava.
Parecia que em tudo o que dissesse mentia.
Faltava-lhe a saliva pra dizer.
Teve de imaginar a heroína ao seu lado, atrás de si, diante de si, pra fazer um grande show.
Imaginar apenas...
(Mais uma vez!
Mais uma vez, meu deus!)

...Quantas vezes teria ela chorado assim?
Quantas vezes ele ter-lhe-ia imaginado assim, nas tardes comuns?

Mas o noivo da heroína
Era o caubói –  além d... –  uma tragédia, enfim,
Silenciosamente patética.

Embora eles tivessem emergido do mais profundo,
Para aprender a amar,
Para aprender a viver,
Tiveram de abandonar,
Às pressas,
O amor mais verdadeiro e vívido,
Como se fugissem do vulcão,
Pela primeira vez, ameaçando,
Com uma erupção devastadora.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

HARDWARE, SOFTWARE E RAPADURA

O astronauta da periferia
Sempre abandona o lar.

O astronauta é hardware,
É software e rapadura.
Vive juntando Nietzsche e Axle Rose,
Incitando beijos impossíveis.
Nunca fala de namoradas,
Seu negócio é coturno e crucifixo.
Esteve em Marte ainda ontem
Pra instalar um engenho de garapa.
Nunca se sabe de que gostam os marcianos.

O astronauta de Perdizes
Conhece o cortiço e a favela.
Sempre abandona a mãe
Pra ver se ela se apaixona, com saudade.
Chega súbito, de madrugada
E entra pela janela.
Quando tudo está trancado,
Dorme em cima da casa,
Contando as estrelas no alto
E soltando gases pros que estão embaixo.

O astronauta do Belenzinho
Só faz amigos perdidos.
Quem quer que se conserve
Odeia-o à primeira vista.
As raízes da escória
Cresceram nele todo.
É o avesso do avesso do avesso.

O astronauta da periferia
É mais prático do que o homem mais raso
E mais intenso do que o mais profundo.
Sai de casa num foguete
E volta de bicicleta.

O astronauta da periferia

Sempre abandona o lar.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

VIAGENS E ANESTESIA
  (a Thiago)
Dubai,
Meus pés descalços
Transmitiam para o chão
Um calor humano,
Demasiado humano.

Havai,
As ondas do meu pensamento
Eram mais altas
Do que as do mar.

Rio de Janeiro,
Meus amigos sempre pediam
Pra eu ficar
Mais e mais.

São Paulo,
Acabei com a dor
De todos os anos
De um amigo,
Com apenas um germânico
Gemido numa sala escura.

São Francisco,
Cores e camisetas apertadas
Me convidavam
Para colorir outras paragens.

Parati,
Vi veleiros sobre o mar
Acenando para mim.

Egito,
Descobri
Que fui eu mesmo
Em toda a parte.

Munique,
Onde todos os dias
Da minha vida
São contados.

Alto mar,
À deriva,
Sou amor puro

E livre paixão.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

ECCE HOMO Eis que ao sentir a vida tão intensa, O Belo avança e toma o intelecto E ao caos do mundo faz surgir um nexo Resulta-me...