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Mostrando postagens de Maio, 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

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O LUTO ACABOU?
Fora deste raio de visão, Tudo acontece.
Ser dócil sem ser femínio. Ser útil sem ser o estorvo. Solidão sem lamento. Andar na areia sem deixar pegadas. Não crer em grandes multidões. Distinguir o pensamento puramente seu.
Tudo é possível Quando não choramos pelos que partem. A dor do luto, A flor do lodo, O calor que sufoca.
O que dizer, vida, da vida? O que pensar, vida, da morte?
A saudade aquece As lágrimas que caem. A saudade é um fato, Não só um sentimento. A saudade é a ausência De uma voz alada, De um olhar amado, De um sorrir cantando, Um conversar dançando – Parado, exangue.
Fora deste raio de visão, Tudo entontece. Aqui, estou atento, Olhando as horas, Que a cada minuto Me afastam
Dos que amei.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

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ENTRE MIM E A LUA
Já é noite. Os amigos conversam no bar. A lua luta contra as nuvens Para aparecer.
Já é noite. A Sol revela um segredo Que pede a solução de um problema. Mais um crime está por ser praticado: Separação.
Os amigos do bar sempre aconselham o que é mais fácil. E a Sol não quer ouvir conselhos difíceis. Quer, no máximo, adiar a última transa Com tudo certo na cabeça.
Ocorre que entre eles, Os amigos se descobrem: Um parece covarde, O outro um traidor ingênuo E o terceiro não está muito presente, Fica atento e ligado no que são os homens. Anota tudo para os extra-terrestres.
Os homens, as nuvens, a Sol Querem apenas uma coisa na noite –
Ofuscar a beleza da lua.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

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O VENTILADOR SEM RUÍDO
Meu pensamento gerou uma tempestade
Que destruiu antenas parabólicas, Desbastou telhados, Descurou favelas. Não sei o que fazer com minhas cenas. Todo o cinema é pouco Para mostrar tudo o que sinto, Esquadrinhar tudo o que penso. Meu pedido de socorro Sai do meu peito num idioma Que não é falado por ninguém.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

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MADMOSAILLE MOLLAMBÔ
Maria Molambo de olhares firmes. O escarlate desses seus rubis É que dá o róseo dos bares mais brancos, Eu levei um susto quando a conheci. Imaginavas-te uma pura inerme. Uma gorda feia com manchas no rosto. Marcada toda pro deus insolente Não perder de vista a sua alma fétida. E no entretanto a tua beleza Torna pura e bela a maior fealdade. Se até Shopenhauer a houvesse encontrado Em Alemanha, em França, em algures Seria pai a filhos primorosos E viveria além da primavera Que tornas negros os rostos sem cores, Que tornas finos os gestos mais rudes Que fazes melífluo o mais amargo cálice. Mas inda arranhas com unhas profundas As mesmas que embelezam a tua taça, As costas de Narcisos insensatos E perfumando as escadarias Com seu vestido colado à cintura Com seu enigma calado no tempo. Os Gitiranas amanhecem homens Os favelados em orgasmo somem Da atmosfera e chegam ao sol, Que a tua beleza me ensina a enxergar
O belo microscópico da vida.