Postagens

Mostrando postagens de Junho, 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

Imagem
DESCOBRIMENTO DO BRASIL
Num dia como hoje descobriram o Brasil, Mas eu não estava enfurnado no meu quarto. Era outono como sempre é no mês de abril. Caminha escrevia já no pensamento Sobre as pegadas que vira na praia Botinas pisaram antes, Mas é melhor omitir as pegadas Que vieram antes, muito antes E que nem as ondas apagaram Nem a história quis contar.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

Imagem
MERCADO FECHADO
O que há para o café? O que há para o dia? Nenhum assunto novo. Nanotecnologia em benefício do mercado. Mas há correntes envolvendo o mercado. Não entra quem quer vender, Só entra quem quer comprar. É por isso que lá não vendo mais os meus beijos. Há outros – rápidos, doces e efêmeros. O meu beijo é amargo, longo, intenso. Quando eu beijava à venda eu cobrava caro, muito caro. Pois meu beijo eternizava E quem me beijasse podia passar uma vida,
Toda a vida sem beijar ou mesmo querer beijar.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

Imagem
A LÂMPADA OCULTA

Ser primeiro e de todo Pesa mais que ser visto. Visto uma alma suja Para ocultar seu matiz.

Nenhum sentido percebe uma alma, Nenhum espelho lhe pode refletir. A lentidão com que vagueia É mais veloz do que os passos de quem corre. E ainda os deuses lhe veem estática; Como que no afã de paramentá-la De armas e escudos Para mantê-la acesa.
Qual uma lâmpada oculta Das mãos que procuram Apalpá-la nua, Do olhar que busca
Engoli-la crua.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

Imagem
NEPENTES (a Thiago Nascentes)
Tudo mesmo, E até a tristeza, Tem fim.
Às vezes sou chamado para uma festa E na festa nada foi planejado, Cada cruzar de braços ou pernas Resulta do não saber o modo de se portar. Na festa um olhar acena, Uma observação inocente pode ser maldosa. Os mares se encontram confusos Misturando uma profusão de águas. As crianças brincam muito a sério. Os homens brincam empolgados. Todos lançam fundo a sua beleza; Falam alto em pleno céu do dia, Até que o entardecer acalme E a noite assuste e cale Tudo o que havia de ser dito. Raramente um pensamento finda, Tudo se rompe, corrompe – termina.
Mas tudo mesmo, E até a tristeza, Tem fim.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

Imagem
O AVARO
O avaro confessou o cúmulo da avareza:
Sabe que quando dorme é para estar só E que quando acorda é para estar junto.
Mas, ao acordar, fica horas na cama, Estando junto, querendo ficar só. Nessa hora, ele tem uma abundância Que ainda ninguém quer e ninguém pede.
À noite, porém, fica quase só – sonolento, Conquanto esteja junto de todos ao seu redor, Nesta hora em que todos o querem e todos pedem.
O avaro economiza alma. E vive num Brasil-quase-Japão E mora num Japão-quase-Brasil.