domingo, 31 de agosto de 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

SINERGIA

Dizia: “Ei! Fala sério!”
Eu pensava que o espetáculo fosse ontem.
Ensaiara feito um louco.
Desmarcara compromissos,
Comera menos,
Dormira pouco.

Eu entendia esses rolos.
Tudo bem,
Era a vida.

Desmanchara minha matéria até aos ossos
Para ficar lento,
Aquilo de bailar pianinho
Me assustava.
Nu então era desafio.

Que falássemos todos por igual no que bailássemos.
Não era orgia, era sinergia.
As flores num jardim viviam no geral por igual.
Se uma vacilasse, as outras acompanhavam.

Que bailássemos, estava excitado,
Estava delirando – que bailássemos!

domingo, 24 de agosto de 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

O DESTINO ESCRITO



Dizia: “não deixe a Flora sozinha!



Ela nos ama bastante,
Ela precisa de nós”.



Eu não entendia esse medo.



Que diferença faria

Para mim que era uma fera,

Una ou com todo o mundo.



Era a mesma bastarda de sempre.



O dedo meu da mão bailava comigo,

Meu seio bailava comigo,
Os meus olhos bailavam,

A dança não me cansava,
Nem a palavra “baila” me cansava.



Tudo ficara automático.



Eu bailava para mim mesma.



Sem o meu segredo guardado

Não sabia o que seria
De mim que pensava no mundo
Daquela maneira vazia.



Eu nunca pedia desculpas,

Pois pensava muito no dito.



Mas sabia: além do que se ouvia
Existia um destino escrito.



Do meu eu só sabia uma coisa…!

domingo, 17 de agosto de 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

O LAÇO QUE ME ATAVA



Eu nunca bailaria tão sozinha.



Fora horrível aquela noite – um abismo.



Sentia-me a esfinge com o enigma – ali, decifrado, decifrado.



Eu chorava de lembrar.



Não, Núbia! Não, Rachel! Bailem comigo!



Eu bailava por amor às gentes.



Eu bailava por amor aos bichos-grilos e aos não-bichos, eu bailava.



Achava que ia parar.



Aquela que não merecia aplausos.



Ia me afastar e me afastar.



Não queria que vocês me elogiassem
E me pedissem para continuar.



Mas eu era assim tão dependente,
Só bailava se visse bailar.




Parava cedo: cento, cento, cento e oito.



Era meu pé, pois então sentia



Prontidão e mãos no solo.



A vitrine e eu dentro.



O aquário no escuro, nos escombros.



Era a vida que pulsava,
Queria a sauna morna longe, longe, longe e intensa,



Via então o alicerce pronto.



Era elétrica demais
Para bailar tão sozinha.


Eu queria que fingissem que não viam
O meu olhar, o meu olhar de medo.



Era concisa e dúbia.



Queria o laço que me atasse,



Eu viera da infância desse jeito:

Pedia água mesmo que sem sede, e a fauna…

domingo, 10 de agosto de 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

                     O IOGUE

Eu, limpando o calcanhar com o nariz.



Eu, de braços e de pernas tornando-me uma festa
        Para os olhares curiosos no salão escuro.



Uma luz que me guiava naquele palco.



Eu, iogue, eu, entregue a todas as possibilidades
        De amor entre o meu corpo e o espaço sideral.



Sentia-me mais próximo da força que criava.



Um toque no assoalho com o meu tornozelo
        Tinha então mais sexo que a penetração mais profunda.



O suor denunciava o meu cansaço.



Eu sentia a liberdade pela dança.



Rodopiava e voava intencional, intencionalmente.



Manguezais, canibais, tons austrais,
        Quando me movia, era ainda ainda mais.



Detalhes e nuances só meus.
        Ninguém podia me acompanhar nesses passos.



Nenhuma pausa me congelava;



Meu coração bailava mais que eu
        E minhas vísceras e o meu sangue
        Acompanhavam o que pedia a mente.



A mão sobre o ombro esquerdo,
        A outra ao cotovelo,
        A cabeça pendendo para os lados
        E os pés regendo os avanços;
Apontava a cada impulso.

Ia abrir os meus castelos em um único espetáculo…

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

                                                                                                                                                   À Munira.

domingo, 3 de agosto de 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza


Prefácio

Assim que comecei a leitura de “O Sonho de Terpsícore”, fui sentindo reavivar-se em mim memórias ligadas a infância, mais precisamente a brinquedos de parque de diversões; aqueles que giram muito e sobem e descem e rodam enquanto sobem e nos viram de cabeça para baixo, continuando a girar e a subir e a descer, nos deixando tontos até quase perdermos os sentidos; e quando param e soltamos os cinturões de segurança, saímos andando em ziguezague, desfrutando prazeirosamente da sensação de estarmos livres das defesas do ego; o que nos permite olhar o mundo de vários outros ângulos, para os quais nossas defesas psíquicas não nos permitiam olhar. Lembrei que gostava, quando era bem pequena, de ficar alguns minutos “plantando bananeira”, buscando estas mesmas sensações: a visão e as sensações alteradas, o frio na barriga, a vertigem – medo e liberdade ao mesmo tempo.
A minha compreensão da obra de João Rosa de Castro é, desde o primeiro poema, visceral e dionisíaca, e desperta muito os meus sentidos. Só mais tarde, depois de ler, experimentar e sentir, podemos começar a dar sentido e significado à nossa vivência. Aos poucos, vamos permitindo que esses significados se juntem, formando nossa identidade. Recomendo que se entreguem à vertigem desta leitura e desfrutem deste prazer. Ao final da obra, você não será mais o mesmo.

São Paulo, 03 de agosto de 2014.


Carmem Liz Vieira de Souza.

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

O DIÁRIO Anda por ruas estreitas que dão na avenida. Vê os passantes apressados esperando o sinal. Frisa que sabe onde é norte – pr...