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Mostrando postagens de Agosto, 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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SINERGIA
Dizia: “Ei! Fala sério!” Eu pensava que o espetáculo fosse ontem. Ensaiara feito um louco. Desmarcara compromissos, Comera menos, Dormira pouco.
Eu entendia esses rolos. Tudo bem, Era a vida.
Desmanchara minha matéria até aos ossos Para ficar lento, Aquilo de bailar pianinho Me assustava. Nu então era desafio.
Que falássemos todos por igual no que bailássemos. Não era orgia, era sinergia. As flores num jardim viviam no geral por igual. Se uma vacilasse, as outras acompanhavam.
Que bailássemos, estava excitado, Estava delirando – que bailássemos!

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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O DESTINO ESCRITO


Dizia: “não deixe a Flora sozinha!


Ela nos ama bastante, Ela precisa de nós”.


Eu não entendia esse medo.


Que diferença faria
Para mim que era uma fera,
Una ou com todo o mundo.


Era a mesma bastarda de sempre.


O dedo meu da mão bailava comigo,
Meu seio bailava comigo, Os meus olhos bailavam,
A dança não me cansava, Nem a palavra “baila” me cansava.


Tudo ficara automático.


Eu bailava para mim mesma.


Sem o meu segredo guardado
Não sabia o que seria De mim que pensava no mundo Daquela maneira vazia.


Eu nunca pedia desculpas,
Pois pensava muito no dito.


Mas sabia: além do que se ouvia Existia um destino escrito.


Do meu eu só sabia uma coisa…!

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O LAÇO QUE ME ATAVA


Eu nunca bailaria tão sozinha.


Fora horrível aquela noite – um abismo.


Sentia-me a esfinge com o enigma – ali, decifrado, decifrado.


Eu chorava de lembrar.


Não, Núbia! Não, Rachel! Bailem comigo!


Eu bailava por amor às gentes.


Eu bailava por amor aos bichos-grilos e aos não-bichos, eu bailava.


Achava que ia parar.


Aquela que não merecia aplausos.


Ia me afastar e me afastar.


Não queria que vocês me elogiassem E me pedissem para continuar.


Mas eu era assim tão dependente, Só bailava se visse bailar.



Parava cedo: cento, cento, cento e oito.


Era meu pé, pois então sentia


Prontidão e mãos no solo.


A vitrine e eu dentro.


O aquário no escuro, nos escombros.


Era a vida que pulsava, Queria a sauna morna longe, longe, longe e intensa,


Via então o alicerce pronto.


Era elétrica demais Para bailar tão sozinha.

Eu queria que fingissem que não viam O

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                     O IOGUE
Eu, limpando o calcanhar com o nariz.


Eu, de braços e de pernas tornando-me uma festa         Para os olhares curiosos no salão escuro.


Uma luz que me guiava naquele palco.


Eu, iogue, eu, entregue a todas as possibilidades         De amor entre o meu corpo e o espaço sideral.


Sentia-me mais próximo da força que criava.


Um toque no assoalho com o meu tornozelo         Tinha então mais sexo que a penetração mais profunda.


O suor denunciava o meu cansaço.


Eu sentia a liberdade pela dança.


Rodopiava e voava intencional, intencionalmente.


Manguezais, canibais, tons austrais,         Quando me movia, era ainda ainda mais.


Detalhes e nuances só meus.         Ninguém podia me acompanhar nesses passos.


Nenhuma pausa me congelava;


Meu coração bailava mais que eu         E minhas vísceras e o meu sangue         Acompanhavam o que pedia a mente.


A mão sobre o ombro esquerdo,

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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À Munira.

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Prefácio
Assim que comecei a leitura de “O Sonho de Terpsícore”, fui sentindo reavivar-se em mim memórias ligadas a infância, mais precisamente a brinquedos de parque de diversões; aqueles que giram muito e sobem e descem e rodam enquanto sobem e nos viram de cabeça para baixo, continuando a girar e a subir e a descer, nos deixando tontos até quase perdermos os sentidos; e quando param e soltamos os cinturões de segurança, saímos andando em ziguezague, desfrutando prazeirosamente da sensação de estarmos livres das defesas do ego; o que nos permite olhar o mundo de vários outros ângulos, para os quais nossas defesas psíquicas não nos permitiam olhar. Lembrei que gostava, quando era bem pequena, de ficar alguns minutos “plantando bananeira”, buscando estas mesmas sensações: a visão e as sensações alteradas, o frio na barriga, a vertigem – medo e liberdade ao mesmo tempo. A minha compreensão da obra de João Rosa de Castro é, desde o primeiro poema, visceral e dionisíaca, e desperta muito o…