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Mostrando postagens de Novembro, 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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FLORA NÃO SE SUBMETIA A NADA



Flora tinha a pele fria.


Não via o sexo como um movimento à parte dos outros.


O choque dos pés no palco, no chão, nas escadarias


Era capaz de engravidá-la;


Mesmo que fosse de um avião.


Flora voava como uma águia, um falcão!

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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O SARAPATEL DE MARIE


Nem que chova canivete, Vou nas chuvas quaisquer umas. Sou de alma pura água Que enobrece com a chuva.


Movimento as articulações A fim de que vocês se me assemelhem.

Sei que assim é que sou deus.


O joelho, o pulso – expulso os androides. Os androides riem-se do sarapatel de Marie. Pensam traduzir do mundo apenas o filé. São sacerdotes perdidos por entre as ervas-finas; Trocam tudo velho – cansam-se do olhar as mesmas coisas.


E, no entanto, bailo todo até eunuco. Bailo néscio ou sabedouro. Sei que a vida é mais que luta, Sei que a outros mais que um drible,


Mas a minha é preencher os espaços e o tempo Com pedaços do meu corpo. Do meu corpo em pedaços.


Eu, sim, faria tudo novamente. Mataria o meu pai tão pertinente E deitaria com suas mulheres marotas.


Eu Cesário – tu o mais que houver. Nada de medir que não a olho. Olhos vistos, olho nu como o meu, Percebem seu espírito a bailar aqui comigo…
Como bailam os ursos em alta floresta!

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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NÚBIA PREFERIU PARIR


Olha como eu salto viva.


Olha como eu bailo solta na caverna.


Com todo o cuidado de não pisar nas estalagmites.


Eu sou ainda capaz de calar, De sussurrar, De falar, De cantar, De gritar, De agredir, De matar.

Nunca atingi uma estalactite. Nem com a minha ambição, Nem com a minha propensão para o voo.


Pari o avião por amor de que todos voem, Com meus pés, Com minhas pernas, Com minhas asas.

Olha como sou linda a bailar… Olha como sou linda… Olha como sou…
Olha!

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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O SERTANEJO


Fabiano tem tornozelos elétricos.


Salta a iluminar a escuridão; Claro como um sertanejo de fato.


Brilha o homem a bailar com seus pulmões.


Fabiano não cansa de voar Por sobre todos os continentes da vida.


Com seus tornozelos elétricos Atrai todos para os seus pés.

O moço tem virilhas de mercúrio.


Não rebola com simples arquear de ancas.


O público alivia a dor dos dias.


Crianças e velhos lhe saúdam.


Fabiano tem virilhas de mercúrio.


Escolhe tão bem os inimigos Que chega a não ter nenhum.


Seu sexo explode dentro das calças.


Usa chapéu para encobrir o cérebro eletrônico. São dez bilhões de neurônios Na sua cabeça eletrônica.


Tanto o mundo deve para este moço, Que girará zilhões de vezes, Sem que lhe recompense.


Vai, Fabiano, ser gauche no mundo Que o cheiro do teu suor me excita
E eu não estou pronta para me deitar…!

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

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POR TRÁS DA MÁSCARA


No meu momento mais distante de mim mesma Eu me libertava das minhas próprias amarras.

Andava pelas ruas de óculos escuros, Por que não vissem no fundo dos meus olhos O quanto eu era feliz.


Ai como eram longas as viagens até mim mesma.


Não tinha nada daquilo de cocaína.


Nada parecido com fuga.


Eu na verdade me amava.


Fazia um esforço sobre-humano para contemplar minha face.


Usara uma máscara tão dura que sentia saudades de mim.


Levara um susto ao me vir frente a frente.


Quantos de nós ansiávamos pela solidão?


Queríamos mesmo era andar causando Em turmas sorridentes e fanfarronas: Rindo das desgraças alheias nos bares.


Mas eu dançava por amor de ficar comigo mesma; Causando nos outros algo diverso do que causavam em mim.


Eu rolava pelo palco com frêmitos; Receando, porém, que me soubessem livre demais E me desejassem roubar a liberdade…!