domingo, 25 de janeiro de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

OLHO DE FALCÃO



O sobrenatural atravanca.



A vida um arsenal desencanta.



Tudo é possível na solidão,
No silêncio da noite.



Passavam enquanto eu observava na foz muitos homens que queriam assistir o passar do tempo;
O desenrolar das nuvens,
O desabrochar lento da flor.



São meninos os homens que sonham;
Infantes os que dizem o sonho;
Embriões os que o interpretam.



A vida uma casa sem lâmpadas;
Virginal qual a mais dócil donzela.
A todos resta a noite.



A noite a hora de pensar;
O lugar para sentir.



A paragem: meditar.



Tudo está em movimento, salvo as coisas brutas como esta pedra.



Efêmeras que vão para o mais distante.



Os corpos tépidos ou humanos
Seguem querendo ser coisas.



Afã de se brutalizarem,
Anseiam por ser carregados

Qual horda no carro-de-boi…!

domingo, 18 de janeiro de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves


SONHO COLONIAL
                               (À Duda)



O escravo andava descalço
Quando avistou um pássaro calçado.
Se o pássaro voava alto
Para que sapatos de calças?



João! Faça tudo sempre, João!
Acorde e diga bom dia sempre, João.
Sempre trabalhe – estude sempre.
Ouça Chiquinha sempre – que ela não parece ouvir-se a si mesma.
Leia Nietzsche sempre!
Leia sempre!
Fuja sempre dos cristãos!
Ignore, sobretudo, os kardecistas!



Olhe o que fizeram com a prole de seu pai.



Durma sempre.



Sonhe sempre.



Visite nos sonhos a bênção de seu pai e de seu filho.



Escreva sempre.




Salve sempre o que puder salvar!

domingo, 11 de janeiro de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

LA CITTÁ


O tempo passa, o tempo urge – o que não é urgente não chega à minha pequena cidade, que transforma tudo e todos a seu bel-prazer. Minha pequena cidade é coleção de flores, de carros – latas velhas. As sombras falam aqui. O invisível perde o toque: tudo se confirma, se comprova, se observa. As assombrações apenas na fala humana. Veja se as formigas, as mariposas ou as traças estão interessadas em comprovar alguma coisa. A cidade excede o ponto de macumba. A chuva de Ubatuba – a tuba, a tuba, o turbilhão!

domingo, 4 de janeiro de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

PAISAGENS ONÍRICAS




O tempo parou e a prata perdeu o brilho.



Eles estão à espera, no cinema,



Os proscritos entre si – no truque.



Os outros não são proscritos porque se ligam na tela.



Eu nunca vi um deus.



Nunca vi a rainha,
O príncipe – o belo,
A fera!
Tudo se foi com o brilho da prata.



O meu bem se prepara para amanhã;
Quiçá me veja - ou não.



O meu amor é cálculo
E o meu bem detesta o cálculo.
Mata o que é bom matar – ver o sangue correr!



O meu bem entrou no meu sonho,
Me beijou ternamente
Escolheu um dos dedos para me acariciar e me acariciou.
Não dizia se gostava – se não – seu olhar estava distante.
No meu sonho – tudo no meu sonho – até seu hálito amargo,
Seu gesto tão dócil; a firmeza sua, a certeza da sua mão direita.



Tive um sonho
Tão bom que a prata perdeu o brilho
E o cinema foi proibido.



Vamos andar na Grécia – Vamos louvar Dionísio!

João Rosa de Castro - Amor Grátis

ECCE HOMO Eis que ao sentir a vida tão intensa, O Belo avança e toma o intelecto E ao caos do mundo faz surgir um nexo Resulta-me...