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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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OLHO DE FALCÃO


O sobrenatural atravanca.


A vida um arsenal desencanta.


Tudo é possível na solidão, No silêncio da noite.


Passavam enquanto eu observava na foz muitos homens que queriam assistir o passar do tempo; O desenrolar das nuvens, O desabrochar lento da flor.


São meninos os homens que sonham; Infantes os que dizem o sonho; Embriões os que o interpretam.


A vida uma casa sem lâmpadas; Virginal qual a mais dócil donzela. A todos resta a noite.


A noite a hora de pensar; O lugar para sentir.


A paragem: meditar.


Tudo está em movimento, salvo as coisas brutas como esta pedra.


Efêmeras que vão para o mais distante.


Os corpos tépidos ou humanos Seguem querendo ser coisas.


Afã de se brutalizarem, Anseiam por ser carregados
Qual horda no carro-de-boi…!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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SONHO COLONIAL (À Duda)


O escravo andava descalço Quando avistou um pássaro calçado. Se o pássaro voava alto Para que sapatos de calças?


João! Faça tudo sempre, João! Acorde e diga bom dia sempre, João. Sempre trabalhe – estude sempre. Ouça Chiquinha sempre – que ela não parece ouvir-se a si mesma. Leia Nietzsche sempre! Leia sempre! Fuja sempre dos cristãos! Ignore, sobretudo, os kardecistas!


Olhe o que fizeram com a prole de seu pai.


Durma sempre.


Sonhe sempre.


Visite nos sonhos a bênção de seu pai e de seu filho.


Escreva sempre.



Salve sempre o que puder salvar!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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LA CITTÁ

O tempo passa, o tempo urge – o que não é urgente não chega à minha pequena cidade, que transforma tudo e todos a seu bel-prazer. Minha pequena cidade é coleção de flores, de carros – latas velhas. As sombras falam aqui. O invisível perde o toque: tudo se confirma, se comprova, se observa. As assombrações apenas na fala humana. Veja se as formigas, as mariposas ou as traças estão interessadas em comprovar alguma coisa. A cidade excede o ponto de macumba. A chuva de Ubatuba – a tuba, a tuba, o turbilhão!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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PAISAGENS ONÍRICAS



O tempo parou e a prata perdeu o brilho.


Eles estão à espera, no cinema,


Os proscritos entre si – no truque.


Os outros não são proscritos porque se ligam na tela.



Eu nunca vi um deus.


Nunca vi a rainha, O príncipe – o belo, A fera! Tudo se foi com o brilho da prata.


O meu bem se prepara para amanhã; Quiçá me veja - ou não.


O meu amor é cálculo E o meu bem detesta o cálculo. Mata o que é bom matar – ver o sangue correr!


O meu bem entrou no meu sonho, Me beijou ternamente Escolheu um dos dedos para me acariciar e me acariciou. Não dizia se gostava – se não – seu olhar estava distante. No meu sonho – tudo no meu sonho – até seu hálito amargo, Seu gesto tão dócil; a firmeza sua, a certeza da sua mão direita.


Tive um sonho Tão bom que a prata perdeu o brilho E o cinema foi proibido.


Vamos andar na Grécia – Vamos louvar Dionísio!