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Mostrando postagens de Fevereiro, 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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A NOITE FRIA


O meu amigo foi embora.


Embora para não voltar.


Fico com os odores desta noite fria.


O meu amigo andava perfumado, Sorrindo sorrisos diversos.


Agora fico aqui com os ruídos dos eletrodomésticos - fundo da noite fria.


Os copos secos.


Nada de álcool.


Nenhuma embriaguez sequer.


Sobriedade e consciência.


Consciência que engolfa o mundo.


E esta noite fria.


Ouço minhas cansativas coleções.


E daí? Que os prazeres vividos isoladamente não são verdadeiramente um prazer.


O prazer está no olhar atento, No ouvido atento – no olfato ladino etc. Nos gestos de companhia.


O meu amigo foi embora Embora eu o paparicasse, Eu lhe enchesse a bola, Eu o exaltasse.


A noite fria fica em silêncio
Enquanto eu me movimento rumo ao infinito!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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CABINDAS POLIÂNDRICAS



Quase sai de mim que não sou eu mesmo.


“Eles” são tantos – tantas são as vozes vorazes Famintas e apavoradas com a miséria.


Enchem-se de certeza e repetem o mesmo: são vítimas!


Vítimas do holocausto!


Vítimas da ditadura!


Vítimas das chuvas!


Do vulcão!


Do terremoto!


De si mesmas.


Cheias de certezas Sem uma sombra de dúvida sequer.


Pois que no mundo tudo “se parece” com alguma coisa.


E as novas vítimas sempre carregam nas mãos alguma coisa.


Nem para o poeta versejar sem uma pena.


Vítima também dos ouvidos que têm as paredes.


Este trecho de uma história ao fim Nem parece uma ideia – impossível fazer política com este trecho de uma história de um homem dilacerado que recolhe com as horas os seus pedaços.


Dúvida a cada passo – a cada fôlego.


A cada canção que as vítimas orquestram no afã de serem comiseradas.


Quase sai de mim que não sou eu mesmo,
Mas eu guardo este “quase” entre os dentes…!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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SEM RIMA



Digo tudo sem rima.


O mundo é já obra-prima.


Quem tem de poetizá-lo?


Afasta-te como em esgrima.


Não penses que sou fugidio.


Invado meu espaço no mundo E rio do que já passou.


E chove uma chuva no Rio.


Não rimo! Não rimo nada!


Que nada é semelhante!


Um homem fugindo do frio Precisa inda vir da Alemanha.


Não sou um infante com manha.


Só leio do papel da tinta Que a luz e a luz do sol


Um dia, um dia eis que finda.


Poetizar é calar – dizer o que nunca se diz.


Amarra um nó cego na corda!



Sou tinto – eterno aprendiz!!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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METEOROLOGICAMENTE



O tempo da frieza chega.


Todos calcularão seus sorrisos.


O comércio manda.


A frieza chega.


A namorada tão negra A cada dia me abandona.


Eu coletividade de almas.


Eu condenado por mim mesmo a viver condenado.


Por quê?


Já não fumo, Já não bebo, Já não cuspo.


Deixo a porta escancarada.


Entram ventos, semiventos, pela janela entreaberta.


Para que viera ao mundo?


Se não posso criar, procriar, suportar sem sucumbir?


Uma porrada na lata da parede.


Uma porrada na lata do “santo”.


Doente. Muito doente.


Nunca mais aquela viagem sem rumo.


Nunca mais as carícias de mãos.


O espírito que em mim habita Quer estrelar, quer errar – tornar-se público.


E de sorrisos calculados qualquer igreja está cheia.


A vida é séria.


Muito séria mesmo – Mas antes a grave felicidade


Do que as alegrias de uma vida infeliz…