domingo, 26 de abril de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

ARTÊMIS




Ele não tinha tempo para as nossas loas feminis.



Só queria saber do que pudesse dar certo.



A vodca na taverna.



A sinuca aos ouvidos.



Os idiomas e as mulheres bonitas borbulhando em sua mente.



Tinha pacto com o diabo.



Mas era musical para com o semelhante.



Quer dizer – com o outro.



Não se assemelhava a ninguém.



Era dado a destruir lares.



Achava um desperdício que mulheres finas



Não ouvissem boa música.



Como continha comprimidos em suas mãos os próprios sentimentos.



Não tinha dúvidas nem certezas.



Não dizia nada a ninguém



A não ser que amava os amigos.



Era ímpar sempre,
Sempre surpreendente.



Era um homem só

E partiu cedo – cedo demais!

domingo, 19 de abril de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

À HELENA RAMOS




Como não existir o primeiro amor
Ainda pulsando em minha memória?



Como não existir esta deusa que ressoa ali
A um passo do meu afago?



Como não existir o meu bem que me chama
De longínqua cidade para dizer que me ama?



Como não existir este deus-pai, meu pai-deus
Colorindo com um sorriso o meu quarto numa fotografia?



Como não existir meu amigo, cuja voz se transmite
Pelos fios telefônicos da telepatia tão humana?



Como não existir o brilho dessas mulheres
Que agora dormem para estampar na elasticidade do ar
Sua aura tão resplandecente?



Como não existir um corpo cheio de dor e de alívio
Por trás desta voz que ouço no rádio a falar?



Ou ao menos o piloto daquele avião que passa,
Dessa motocicleta explodindo o asfalto?



Sim - a humanidade existe - sinto daqui seu olor
De perfumes misturados na manhã entregue pelas mãos da aurora.



Sim para o dia – seja bem-vindo
A carregar os bípedes passos que levam ao encontro do mais além.




A humanidade existe!

domingo, 12 de abril de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

A PUREZA INEXPLICÁVEL DE UM SER




E teus filhos te sabem tão grandiosa,
Que se afastam como se se aproximassem de um sol eterno.
Tiveste tantas vidas em uma única vida;
Sabes as cores e matizes de cada dia.



A imprimirem os desenhos das nuvens.



Tu vens de tão longe.



Vens de uma distância inatingível.



Nem o filho mais robusto te alcança.



Desenhos tão chãos,
Traçando o caos a fim de superá-lo.



Tu abrigas o mundo.



E não percebes classe nem cor nem credo.



Cabe a Via Láctea com outros dez convidados
Nas festas com que recebes.



Quantos banquetes!



Quantos afagos,
Quanto carinho há no teu beijo.



E mesmo assim, nada te contamina.



Nem exército invade teus portões.



Acolhes os perdidos,
Como se junto com a reza rogasse por todos,
Na hora do distender.



E permaneces menina – sem máscara.



Nem traje que te embelezes ainda mais.



Alma nua iluminando o mundo.




Como és amada, Francisca!

domingo, 5 de abril de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

PORQUE HOJE É HANÁ




Haná: o dia da desconstrução.



Divida, em Haná, a pedra em duas.



Sem fazer estardalhaço.



Nada de gritos,
Nada que fuja muito ao silêncio.



Desmontar a máquina no dia de Haná.



Para ser capaz de montá-la em Helena.



Interpretá-la em Jurema.



Escrevinhar e digitá-la em Clarice.



Estampar e copiá-la em Minerva.



Patentear a máquina em Maria.



Divulgar e dedicá-la em Francisca – com festa.



Novamente desmontá-la em Haná,
E assim por diante.



Onde fica o frenético namoro?



Quando ocorre o multiplicar-se?



Quem poderá largar a máquina para ver futebol?



Haná: o dia da desconstrução.



Divida o coração em dez filhos.



Silêncio de nenhum frenesi.



Nada de cortar cebolas e lágrimas.



É possível desconstruir a máquina dormindo.



É possível desconstruir a máquina aos prantos.



E dar nome aos bois - tudo neste dia.



Neste dia de frio, silêncio e divisão.



E onde fica a rima?



Deixe-a colada no ímã.



Faça como faz com a mãe:
Deixe tudo sem rima



Que rima é luxo de poetas ricos!

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

O DIÁRIO Anda por ruas estreitas que dão na avenida. Vê os passantes apressados esperando o sinal. Frisa que sabe onde é norte – pr...