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Mostrando postagens de Abril, 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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ARTÊMIS



Ele não tinha tempo para as nossas loas feminis.


Só queria saber do que pudesse dar certo.


A vodca na taverna.


A sinuca aos ouvidos.


Os idiomas e as mulheres bonitas borbulhando em sua mente.


Tinha pacto com o diabo.


Mas era musical para com o semelhante.


Quer dizer – com o outro.


Não se assemelhava a ninguém.


Era dado a destruir lares.


Achava um desperdício que mulheres finas


Não ouvissem boa música.


Como continha comprimidos em suas mãos os próprios sentimentos.


Não tinha dúvidas nem certezas.


Não dizia nada a ninguém


A não ser que amava os amigos.


Era ímpar sempre, Sempre surpreendente.


Era um homem só
E partiu cedo – cedo demais!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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À HELENA RAMOS



Como não existir o primeiro amor Ainda pulsando em minha memória?


Como não existir esta deusa que ressoa ali A um passo do meu afago?


Como não existir o meu bem que me chama De longínqua cidade para dizer que me ama?


Como não existir este deus-pai, meu pai-deus Colorindo com um sorriso o meu quarto numa fotografia?


Como não existir meu amigo, cuja voz se transmite Pelos fios telefônicos da telepatia tão humana?


Como não existir o brilho dessas mulheres Que agora dormem para estampar na elasticidade do ar Sua aura tão resplandecente?


Como não existir um corpo cheio de dor e de alívio Por trás desta voz que ouço no rádio a falar?


Ou ao menos o piloto daquele avião que passa, Dessa motocicleta explodindo o asfalto?


Sim - a humanidade existe - sinto daqui seu olor De perfumes misturados na manhã entregue pelas mãos da aurora.


Sim para o dia – seja bem-vindo A carregar os bípedes passos que levam ao encontro do mais além.



A humanidade existe!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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A PUREZA INEXPLICÁVEL DE UM SER



E teus filhos te sabem tão grandiosa, Que se afastam como se se aproximassem de um sol eterno. Tiveste tantas vidas em uma única vida; Sabes as cores e matizes de cada dia.


A imprimirem os desenhos das nuvens.


Tu vens de tão longe.


Vens de uma distância inatingível.


Nem o filho mais robusto te alcança.


Desenhos tão chãos, Traçando o caos a fim de superá-lo.


Tu abrigas o mundo.


E não percebes classe nem cor nem credo.


Cabe a Via Láctea com outros dez convidados Nas festas com que recebes.


Quantos banquetes!


Quantos afagos, Quanto carinho há no teu beijo.


E mesmo assim, nada te contamina.


Nem exército invade teus portões.


Acolhes os perdidos, Como se junto com a reza rogasse por todos, Na hora do distender.


E permaneces menina – sem máscara.


Nem traje que te embelezes ainda mais.


Alma nua iluminando o mundo.



Como és amada, Francisca!

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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PORQUE HOJE É HANÁ



Haná: o dia da desconstrução.


Divida, em Haná, a pedra em duas.


Sem fazer estardalhaço.


Nada de gritos, Nada que fuja muito ao silêncio.


Desmontar a máquina no dia de Haná.


Para ser capaz de montá-la em Helena.


Interpretá-la em Jurema.


Escrevinhar e digitá-la em Clarice.


Estampar e copiá-la em Minerva.


Patentear a máquina em Maria.


Divulgar e dedicá-la em Francisca – com festa.


Novamente desmontá-la em Haná, E assim por diante.


Onde fica o frenético namoro?


Quando ocorre o multiplicar-se?


Quem poderá largar a máquina para ver futebol?


Haná: o dia da desconstrução.


Divida o coração em dez filhos.


Silêncio de nenhum frenesi.


Nada de cortar cebolas e lágrimas.


É possível desconstruir a máquina dormindo.


É possível desconstruir a máquina aos prantos.


E dar nome aos bois - tudo neste dia.


Neste dia de frio, silêncio e divisão.


E onde fica a rima?


Deixe-a colada no ímã.


Faça como faz com a mãe: Deixe tudo sem rima


Que rima é luxo de poetas ricos!