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Mostrando postagens de Maio, 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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SINFONIA
É já a música nascida e pronta Que ao meu ouvido prenuncia o mundo. Um som suave, um canto. Eu mudo e quieto desperto. Os dó-ré-mis insaciáveis Misturam-se com as cores, E o grande espetáculo interno Ora entristece, ora alegra. É meu coração que bate, É outro que pulsa ao redor. É meu corpo que estremece, Dança, vacila e existe.
Existência tem som de música. Existência tem cor de pássaros. Existência é tão sabida Que me perco logo ao dizer. Existir coincide com tudo que se imagina e se ouve. A sinfonia dos fluidos Que sintoniza os meus medos. A sinfonia, o vibrato Que a cada pulso me envolve Faz-me sentir com o tempo
Pleno, porém solitário.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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CONTAGEM
Nas silhuetas coerentes Dos tentáculos dançantes, Viam-se coisas marítimas. Tudo que parecia caótico: A passada poluição táctil, Os movimentos desordenados Do playground doutras distâncias, Agora não se viam. Via eu a mim mesmo Querido pelos tentáculos Da minha nova casa Acolhedora e óbvia. Terno e envolvente agasalho, Acariciando o semi-corpo. O que é entregar-se? O que é amar senão sentir-se? Ficaram na memória dos espectadores imagináveis As boas-vindas esplendorosas, A soma da minha matéria Nessa bolha tão majestosa, Onde o sonho e o tempo Formam uma só realidade, Em que tudo é possível vislumbrar. O arrepio na inspiração do oxigênio Soprado pelo Deus a todo instante O Deus distante e presente, embora. Já se pode abrir os olhos Para formar minha consciência. Não que os toques alheios Não tenham tido valor. É que, na sóbria independência Imaginária e incerta, De nada tenho saudade. As cores fazem tão bem Para as minhas retinas. As formas que se desenham E tanto que simbolizam, Vão assim me pertencendo E estrut…

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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PRELÚDIO
Toca todo mundo, Toca arrumar carro, Toca o Deus querer Que eu seja gente. Toca acreditar que eu preciso. Está na hora. Demorou! Demorou! Toca subir, descer Ruas e passarelas.
Eu não sei o que é isso. Eu não vi, não vejo. Não ouvi, não ouço. Não senti aromas, não cheiro. Não comi, não como. Só senti – sou quase corpo.
O Deus explicou; O Deus trouxe telas; O Deus exibiu diagramas em braile Para ir me convencendo, Para ir-me caçando, Para ir me-rompendo.
Toca aparecer astronautas, Flutuando sem medo, Cavalgando em jegues E rinocerontes. E espalhando poeira. Eu sem saber, Sem desespero, Com desprezo, não entendia.
O Deus dizia “Demorou!” O túnel claro e rijo de paredes Com cerdas aparentando samambaias azuis. Tudo era dito no silêncio dos toques. Na boca me puseram e eu girei. Espiral! Espiral! O tempo é espiral! Eu não sabia o que estava Acontecendo no playground! Espiral! Espiral!Maracujá e chuchu!
O tobogã sem destino Tinha destino em pessoa!
Espiral! Espiral! Zona norte. Zona leste. Passavam lugares embaixo de mim. O …

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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ILÚDIO
Sem forma e solto Nada há que com meu corpo se identifique. Sou uma ilusão quase binária – quanta. Mas preciso me descrever para mim mesmo. A invisibilidade não basta. A sutileza não alcança o meu nome. É preciso saber que eu me movo no espaço, Num dado espaço. Porém ainda não sou célula. Por enquanto fluo nos canais Dum adorável playground De peças firmes e cinzentas.
Nem sempre se almeja transformar-se Na minha condição, eu ficaria eterno e feliz. No entanto a fatalidade me torna outra espécie E outra espécie e outra espécie. E a cada etapa disso que evolução chamam, Vou-me acostumando com espécies irmãs. Tudo, na realidade, se acomoda e adapta. Vou vendo os símbolos ao meu redor E, por fim, participo desse movimento involuntário. Um caos. Um tal sentir-se cair e erguer-se de um modo cego.
Sem certeza e apto. Em qualquer instante, ganharei outra consciência. Uma liberdade que intensa deixa. Eu que sucumbo e sinto. Sentir. Rolar. Gota de orvalho lenta na dada e limitada pelo espaço pétala. Parece que …

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

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HERMETO PASCOAL



Eu queria a virtude e tive o conforto.


O sonho com escadarias de cristal Fora mais completo do que a madrugada.


Tudo estava ali - vasos raros traçados Com desenhos de quem vivera em paraísos.


Gravuras, quadros e esculturas Nascidos de mãos mais distantes.


E o que eram estes instantes?


Minha negra com colares coloridos.


O perfume que o rapaz inalava e exalava, Tanto dele para ele Como dele para o mundo. A natureza do que é único em cada visão.


Esta casa iluminada e pronta Para receber príncipes: monarcas de toda estirpe.


Eu queria o calor dos gargarejos


E tive a frieza dos camarotes.


Tudo foi o sonho de que acordara.


A existência era clara como a luz do verão.


Um grito ecoava ao longe e se ouvia afoito. Todos os habitantes da terra aguardavam


Uma fala única, e eu fingindo não me ouvir.


Optei por amarrar meu cadarço e permanecer na geral!