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Mostrando postagens de Junho, 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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A DOR
Que dias completos De solidão sem lamento! Eu não sei-me só Pois ouço ruídos. Não sinto-me só Porque a memória Dá fotografias; Porque as imagens Já são companhia. Porque os sabores Que descem a língua, Somada a saliva, Transformam-me inteiro. Que horas tranquilas As minhas de hoje. Cinema ligado, Janelas abertas, Pessoas passando, Cidades nascendo.
Eu sinto que empurram Meus pés em silêncio. E o Deus aparece Para esclarecer O que acontece Do lado de fora.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O MACHO
O macho, com sua voz tão grave, Deu um grito que acordei assustado. Era brincadeira de assustar. Depois contou histórias longas Com sua presença protetora. E eu ouvia escondido.
O macho, com sua pele rija, Fazia-me lembrar tempos remotos. E as risadas que eu ouvia Desconcentravam a minha dança. Eu atento a cada palavra do macho, Imaginava vírgulas e travessões.
O macho, com sua lei, Me fazia pensar que faltava muito... O Deus dizia: “É o Pai.” O Pai dizia: “É o Deus.” O Pai era mais modesto que o Deus. Fazia-se de escravo Dele. Eu fui tendo medo do Deus.
O Pai achava o Deus bom. O Deus achava era o Pai. Parecia que não me queriam bem. Eu enciumava o Deus com o Pai. Eu enciumava o Pai com o Deus.
O Pai, com sua canção funda, Parecia-se tanto com o Deus Que eu não sabia mais
Quem era quem.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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TUPÃ
Se Édipo trancou-se no seu quarto, Seu pai levou a chave consigo, Que tenho eu com isso de repente? Que quero tanto em vão que não consigo?
Ora, Viver é melhor que boiar. Não é hora ainda de mascar chiclete. Não é tempo de birra, Tupã! Não ore que reza rasga, Tupã! Escarlate é o vermelho bem vestido. Teimosia é coisa de gente nascida, Tupã! Amarelo é uma promessa. A cor está no princípio, Tupã! Tudo coisa de avó cansada.
Que sinto no meu peito que não vejo? Que mais farei aqui se estou contente? Jocasta é toda mãe que não desiste. Amélia é que é mulher que se contente.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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A DANÇA
O ensaio no flácido castelo Para o espetáculo das gentes; A atenção que dou a mim mesmo; O sorriso que já confiro ao espelho; Narciso em seu rio de solidão. Por que não? Por que não, então? Odes escritas aos meus olhos; Toda espécie de arte manifesta; Toda imaginação que flexiono Alimenta o meu ser que cresce.
Completude tão sonhada por nascidos; Instintos nobres no extra-terreno espaço; Lágrimas tépidas e sinceras; Uma saudade que acalanta; Riqueza nos movimentos exatos; Candura nos gestos maternais; Conversas mudas que se cruzam: Tudo é tão abstrato que pareço mentir.
A dança nesse morno agasalho De uma desilusão drummondiana. Dê uma atenção a esta cena: A rigidez dos pés no chão de chama;
A cálida risada da mãe que ama!