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Mostrando postagens de Novembro, 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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ANGOLA
Os seus lábios finos. A sua pele macia. O seu afago sincero. Tudo em você me eterniza. Eu nunca quisera saber O que vai na sua mente. O seu soberano espírito, Que a todos abraça, Atravessa as paredes da casa, Guia-me na minha escuridão. Seu olhar feito de enigmas, Seguindo os meus movimentos, Acompanha cada passo meu. Você, que me define e me forma, Faz de mim a sua escultura, Nessa dúvida sobre os desejos que vou despertar, Quanto amor carrega ainda no seu peito?

Você, livre e circense, encanta por encantar.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O TAMBOR
Luciana tá dodói. Eu quis ser seu herói. Sem sarar, tudo ela vem e destrói. A irritação de Luciana Promove catástrofes cósmicas. É preciso ser de papel Pra não temer o grito de Luciana.
Luciana jejua. Quer se tornar uma santa E molhar os olhares com o que pensa sofrer.
Luciana não é capaz de amar ninguém absolutamente. Quando percebe que está sendo amada - desaparece.
Luciana me deixa curioso. Luciana me deixa furioso.
Engole com a vulva o som dos tambores. Não carece do meu olhar sem tanto ritmo.
Luciana tá dodói, Mas chora por outras razões.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O OUTRO
Anhanga está no meu ventre Com cheiro de fumaça sã. O que vou fazer da minha vida Com o peito cheio de caridade? Lá vem Anhanga bem vindo, Lá vem Anhanga pro mundo. O mundo vai ver Anhanga, E a mim não vai mais viver. Anhanga vai deglutir-me. Atávico, fugirei. Minhas mãos nos seus cabelos. Seu corpo no meu colo. Seus pés pisando-me a terra De andar. Como vou viver? Fingindo que o venero? Lá vem Anhanga saber. Se ele tornar-se eu E eu tornar-me ele, Anhanga e eu seremos Insustentáveis no tempo. Daí nossas léguas andadas, Daí nossas veias em sangue Virão na memória dizer Que na mente dum pai há dois filhos: Um deles é preciso de viver.

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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O BEIJO
Quando você anda Quantas você é? Uma a cada passo Ou a mesma sempre? Quando você ouve Quantas vozes ouve? Uma por palavra Ou a mesma sempre? Quando você beija Uma boca tímida Quantas bocas sente? Uma a cada pulso Ou a mesma sempre? Quando você chora Que lágrima é certa A do olho esquerdo Ou cada uma que cai? A quantidade ficou tão sagrada. A película um rolo contínuo de um álbum de família arduamente constituída num set. A cana prensada que dá cachaça. O grão torrado que fica café. Desperta desse sono intenso. Luciana, me escuta: Quando você ama
De onde vem o seu gemido?

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

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A ANTENAO fio elétrico em curto Deixou a fórmica manchada. Os dedos de Luciana Traziam anéis selvagens.
O relógio como sempre Dava o tempo com os ponteiros dele. Sempre apareciam colunas. Sempre despontavam árvores E os postes rasgavam as calçadas. Os pés da mesa. Os puxadores dos armários, Os parafusos. Paisagens minhas. Os retratos altos, distantes da minha cabeça. A ponta da faca. A ponta do prego. A ponta da mesa. A ponta do pão. A ponta do lápis dizia tudo. Os cabelos elásticos De Luciana cheiravam a eucalipto. No rádio Elis cantava e dizia. No rádio a Clara sambava com as ondas. E sua voz rodava debaixo daquela agulha. Os Bitous, Excelcior, o fanque – Vitrola. Sons da vida. Tons do mundo. A brega canção. A briga de amor. Ninguém tinha tempo pra filosofar. Uma guerra rondava os corações ao meu redor. Mas tão disfarçada, Mas tão mascarada, Mas tão incansável e sutil Que eu via, mas não podia provar. A agulha que furava o pano. Os garfos nas mãos eu via. As unhas nem sempre pintadas. Uma ameaça. Uma força me dizia: “Voc…