domingo, 29 de novembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

ANGOLA


Os seus lábios finos.
A sua pele macia.
O seu afago sincero.
Tudo em você me eterniza.
Eu nunca quisera saber
O que vai na sua mente.
O seu soberano espírito,
Que a todos abraça,
Atravessa as paredes da casa,
Guia-me na minha escuridão.
Seu olhar feito de enigmas,
Seguindo os meus movimentos,
Acompanha cada passo meu.
Você, que me define e me forma,
Faz de mim a sua escultura,
Nessa dúvida sobre os desejos que vou despertar,
Quanto amor carrega ainda no seu peito?


Você, livre e circense, encanta por encantar.

domingo, 22 de novembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O TAMBOR


Luciana tá dodói.
Eu quis ser seu herói.
Sem sarar, tudo ela vem e destrói.
A irritação de Luciana
Promove catástrofes cósmicas.
É preciso ser de papel
Pra não temer o grito de Luciana.

Luciana jejua.
Quer se tornar uma santa
E molhar os olhares com o que pensa sofrer.

Luciana não é capaz de amar ninguém absolutamente.
Quando percebe que está sendo amada - desaparece.

Luciana me deixa curioso.
Luciana me deixa furioso.

Engole com a vulva o som dos tambores.
Não carece do meu olhar sem tanto ritmo.

Luciana tá dodói,
Mas chora por outras razões.

domingo, 15 de novembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O OUTRO


Anhanga está no meu ventre
Com cheiro de fumaça sã.
O que vou fazer da minha vida
Com o peito cheio de caridade?
Lá vem Anhanga bem vindo,
Lá vem Anhanga pro mundo.
O mundo vai ver Anhanga,
E a mim não vai mais viver.
Anhanga vai deglutir-me.
Atávico, fugirei.
Minhas mãos nos seus cabelos.
Seu corpo no meu colo.
Seus pés pisando-me a terra
De andar. Como vou viver?
Fingindo que o venero?
Lá vem Anhanga saber.
Se ele tornar-se eu
E eu tornar-me ele,
Anhanga e eu seremos
Insustentáveis no tempo.
Daí nossas léguas andadas,
Daí nossas veias em sangue
Virão na memória dizer
Que na mente dum pai há dois filhos:
Um deles é preciso de viver.

domingo, 8 de novembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O BEIJO


Quando você anda
Quantas você é?
Uma a cada passo
Ou a mesma sempre?
Quando você ouve
Quantas vozes ouve?
Uma por palavra
Ou a mesma sempre?
Quando você beija
Uma boca tímida
Quantas bocas sente?
Uma a cada pulso
Ou a mesma sempre?
Quando você chora
Que lágrima é certa
A do olho esquerdo
Ou cada uma que cai?
A quantidade ficou tão sagrada.
A película um rolo contínuo de um álbum de família arduamente constituída num set.
A cana prensada que dá cachaça.
O grão torrado que fica café.
Desperta desse sono intenso.
Luciana, me escuta:
Quando você ama

De onde vem o seu gemido?

domingo, 1 de novembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

A ANTENA

O fio elétrico em curto
Deixou a fórmica manchada.
Os dedos de Luciana
Traziam anéis selvagens.
O relógio como sempre
Dava o tempo com os ponteiros dele.
Sempre apareciam colunas.
Sempre despontavam árvores
E os postes rasgavam as calçadas.
Os pés da mesa.
Os puxadores dos armários,
Os parafusos.
Paisagens minhas.
Os retratos altos, distantes da minha cabeça.
A ponta da faca.
A ponta do prego.
A ponta da mesa.
A ponta do pão.
A ponta do lápis dizia tudo.
Os cabelos elásticos
De Luciana cheiravam a eucalipto.
No rádio Elis cantava e dizia.
No rádio a Clara sambava com as ondas.
E sua voz rodava debaixo daquela agulha.
Os Bitous, Excelcior, o fanque – Vitrola.
Sons da vida.
Tons do mundo.
A brega canção.
A briga de amor.
Ninguém tinha tempo pra filosofar.
Uma guerra rondava os corações ao meu redor.
Mas tão disfarçada,
Mas tão mascarada,
Mas tão incansável e sutil
Que eu via, mas não podia provar.
A agulha que furava o pano.
Os garfos nas mãos eu via.
As unhas nem sempre pintadas.
Uma ameaça.
Uma força me dizia:
“Você vai ficar sem nexo.”
O nexo em Luciana eu não via.
Luciana parecia sóbria
E dizia que eu também um dia
Ficaria assim vazio.
O medo tomou meu espírito.
A compaixão se apossou de eu.
Ela foi roubada,
Mim também será.
Com ela ficou o passado de tragédia.
Comigo o futuro assustador.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

FILOSOFIA TROPICAL A Mário, ares nordestinos, Ditirâmbicas brisas, revigorando a manhã. Passagem livre pelas portas bem trancadas....