domingo, 20 de dezembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

Confessa ao suave e indiferente ruído da máquina os segredos que você ouvia nas ondas do mar. Os monumentos que você ergueu com as cores da flora. Confessa essa vontade recôndita de poder ter vontade. O mundo foi multiplicado. Respirar o seu ar será cada vez mais possível. A busca da solidão te fez menos solitário. A realidade, a história compacta; a sua castidade, a ideia exata não foram delírio, posto partilhadas. E qual a água e qual o canto e qual filosofia simbolizarão a possibilidade do que você imagina, a realização do que você anseia? Seus planos estão armazenados nas estrelas duma constelação ainda por brilhar. Mas você inquieto não percebe que o silêncio é uma ilusão. Você criminal, você – bandido que rouba horas às mulheres: seus amigos debocham de você; acham que você é doente porque você se faz de tudo. Você é o ator do impossível. Você nunca acertou um alvo com a lança. Você não quis visitar a França. Você fugiu da dança. Um homem que te enxergue te despreza, pois você sempre odiou a compaixão. Ninguém se compadece de super-homens. Você sempre vai ser de pedra. É muito difícil amar você. Você é árduo até no pensar. Quiseram saber o que você faz para se manter humano. Você ultra-homem faz tremer as ruas e os cortiços por onde passa. Você se recusa a ficar, você se recusa a ir, você se recusa a tudo – mesmo ao que vem de você. Se eu pudesse, eu não diria nada a seu respeito. Você rasgou o verbo ser em mil pedaços. As prendas da festa junina, as rendas do vestido da menina, a fenda da pílula mortífera, a tenda do nômade perdido, o acervo da “arte moderna”, o adendo do contrato de joint-venture, o acento que dá crase com o artigo, o alento no corpo tão febril, o assédio violento das esquinas, o adágio repetido à exaustão, o horário em que começa a matinê, o mistério que conclamam sem pensar, a miséria que permeia uma cabeça, a quirera que comem os pintos, o estopim que inicia uma corrida, o dilema do casal na despedida, a quizomba condenada na cidade, os rumores de que Ana está perdida. Você marcha, sim, mas sabe muito bem para onde. O que você procura tanto no fundo do poço? Parece querer o que ninguém vê. Você mostra uma saudade renovada, uma folia pálida e rica. Sobe desce em correria as escadarias do tempo e traz frutos do passado, flores do futuro. Confunde os espectadores com malabarismos formidáveis. Seu circo de ilusão, sua sina que persiste, seus casacos para as noites frias, sua nobreza tão incauta; as suas sagas escarlates rasgadas de assustadoras fustigaram o auditório para as saídas de emergência. Você expulsou até os que se diziam resistentes e deixou o céu deserto. Os anjos perderam seu vôo e tiveram de enfrentar a gravidade e andar. O seu capricho, a sua vontade de ser único, a sua licença para a sutileza formaram um exército com bocas a beijar e corpos a buscar o fascínio do simples olhar que desmancha o espírito que contempla. Acabaram as rezas ao pé da cama. Seus ouvidos só ouvem gemidos, pois as palavras você traduz desse seu modo livre e terno. Você provocou tempestades solares num país que era virgem. Você sabe o que fariam com sua herança. Seu tesouro hoje é guardado por muitos. Você desceu o morro e tropeçou no paralelepípedo, subiu no mármore, mas quis a vista da janela. Como preservar os seus sem renegá-los? Você fez bem em retratar o outro com seu gingado. Adeus. Adeus. Adeus...

domingo, 13 de dezembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

A PARTIDA


Sentado num trono rodeado de anjos famintos. Com seus olhos cerrados como quem não quer ver o mundo, você vocifera contra os arquitetos da sociedade inconclusa. Fala da mentira destilada qual veneno. Desperta os ouvintes com indignação. Discorda muito, concorda pouco. Faz alusão ao verde das florestas. Você inventa ilhas para entender a solidão a que se propõe. Visita os francos, os anglo-saxônicos, os germânicos; com o pé na sua terra. Que terá dela então levado para os nortes? De que mesmo terá saudade? A sua maior mímica se dá quando respira. E quer ser estátua. E quer ser robô, mas não quer sonhar. Do lado de alguns, você vagueia, diante de muitos, se renega. Cospem-lhe a face os fiéis. Porque você adentra com a marca da arte na face. As montanhas, cujas imagens tomam espaço em sua memória, dão vista ampla para paisagens muito distantes. E você diz: “A loucura é o esboço da dor”. Entre os crimes traz um que é claro. Porque o soldado não podia ter um nome, e a guerra se tornou um fenômeno natural, ganhando lugar em qualquer parte. O imperador sente prazer em perder de seu súdito, sente prazer em ganhar de seu súdito, porque sente prazer em jogar com seu súdito. Você não vê divisão de classes. Aí vigora a hierarquia do inferno. Que pôr amor onde só se vê discórdia é uma prática manjada. Estar quieto no seu canto é a folia mais rara. Volta o tempo com seu nome nas manchetes. Quantos peitos atravessam suas espadas? Seus soldados seus reais, suas princesas ainda andam nos shopping-centers da cidade. Filosofam com você as orquídeas e as serpentes. Os reis entregam suas coroas, os pescadores devolvem seus anzóis, as bailarinas sentam na beira do palco e pensam fundo depois de chorar os amores que perderam. Você é uma sucessão de horizontes. A inocência em você evapora. O espírito ganha forma, peso e cor. Brincar com o curso das águas, com as formigas enfileiradas seguindo seu caminho: o seu passatempo oculto. Apesar de distante você samba. O Z da zabumba é tão repentino, o A das Américas é tão dividido, mas sua presença torna tudo muito uno. O que você busca tanto na sua vizinhança. O seu próprio fantasma ou um exorcista? Ah quanta dúvida você deixa sobre o amor manifesto no ar que você derrama! De que servirá ser herói senão aos que querem a vida? Eis a serventia do que você sente pelo mundo. Você jurou que não tinha um revólver. Mas os seus neurônios eram soldados. Quem mais você impressiona? Que gerações achou que viriam? Deixa para Quintiliana o seu ramal, que ela te liga nas suas noites insones. Estamos no mesmo mundo-pabx. O humano coração ainda sangra como antes. Os impulsos mais esquisitos ainda não são originais. Vejo no seu rosto a negação expressa dos seus filhos. Por que terá sido tão temida sua terra? Você me inspira dúvidas. Depois que inventou o destino, você ficou sem o seu próprio. Anda a esmo, ri a esmo, a esmo chora. Toma o seu lugar entre os imortais e quer a morte. Fica entre os mortais e quer a vida. Parece natural. Enfim, há artifícios que se naturalizam de tão inevitáveis. Andrajos pensam, velho homem. Do meu quarto a você é um salto. Mas rever-te não está inscrito no meu destino. O Olimpo pode seguir a consciência de um homem. Instrumento de manifestação das figuras distintas, você anda lentamente pelos jardins coloridos e perfumados como se o ritmo da gente fosse inalcançável. Duro ofício este de distribuir amores sem poder imaginar o que se tornarão em peitos delinquentes. A sua graça surge, abona-o da urbana produção, da fumaça envenenada, dos robóticos sermões, como o único tesouro que inda resta conservar. A tela da sua cabeça, a sonoplastia do seu corpo, a coreografia das suas células, os enredos que pulsam no seu coração fazem dos seus passos o drama interminável que te assombra. Mas quanto mais você fugir da sua imagem, mais ela vai se projetar nos arredores. Modernamente você vê a semente rebentar num cassino. O seu jogo de palavras inteiras reinando entre as outras tímidas lembra você aí na sua vila, pequeno ou grande e mesmo assim sem resposta. Diga o que você fazia com os pensamentos que explodiam na sua cabeça quando você ainda parecia proibido de pensar. 

domingo, 6 de dezembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira


Odã gaê,
Salva o legado do vovô.
Mata a temática do furor.
Vê o movimento do beija-flor.
Odã, Odã.
Sente as raízes aos teus pés.
Sê essa árvore com sabor.
Vê o horizonte se afastando
E o seu castelo vistoso.
Odã gaê:
Gaia envolta em azul.
Tu soprando teus ventos.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

FILOSOFIA TROPICAL A Mário, ares nordestinos, Ditirâmbicas brisas, revigorando a manhã. Passagem livre pelas portas bem trancadas....