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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil

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SANGRIA Ditaram a impossibilidade. Disseram incurável este corpo febril. Nunca terão êxito – previram. Nunca sairão da margem – julgaram. Sempre um texto fragmentado – zombaram. Sempre carregarão um produto isolado, comprado – arguiram. E nós paramos no meio do caminho, nos dispersamos, nos atrasamos ainda mais e enlouquecemos pouco a pouco. Voltamos à idade mais desprezível que teve o homem em sua história. Das cavernas vimos os pupilos em suas espaçonaves ao longe. Quisemos também avançar – num átimo –, mas conhecíamos que as toneladas de nossas almas nos impediriam agourentas. Este corpo, porém, só mesmo nós podíamos mover. Sem influências espetaculares, sem crimes à base de prêmios nem prêmios à base de crimes. Permanecemos devagar a olhar. E libertamos a consciência do atraso geral, trancado tão meramente numa bolinha de sabão. Vimos caiapós com altos valores de mogno nas costas; e cidadãos disfarçados em cocares. Notícias. Notícias populares – qual teria sido impopular? Dize o q…

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil

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PERSONA NON GRATA A indústria da piedade seletiva cresceu em número de almas. Almas-não-bandidas defendendo almas bandidas. O meu desejo era encontrarmos mais fórmulas de decadência para resistir à decadência. Transbordando dos inconscientes a mesquinharia. O capital – pivô das contendas, homebreaker, muralha separando os indivíduos – vira devoção para o mais reles vassalo. Usarei os meus dedos para comunicar meus desejos. Usarei os meus dedos de príncipe da televisão digital. E mudarei meu discurso, e nomearei belas artes, e viverei no meu mundo da sala, da sala, de qualquer sala. E o lixo eletrônico iria prà Índia, e o lixo eletrônico iria pràs sulaméricas; o humano pra cuba. Feitas as contas, estarei satisfeito com perfumes e roupas da moda, saciando todos os impulsos dessa carne que me toma. Fiz da terra o ventre que me gesta contínuo. Unido, jamais serei vencido. Com olhar rico e ares de benevolência darei autógrafos nas filas dos albergues e Agadês. Ó, eu. Ó, eu. Ó, cego eu. Ceg…

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil

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FIAT LUX Consciências a preço de custo. A mecanização raiou antes de o sol raiar. A inquietação das repúblicas federativas e destras ergueram mais um mártir à luta. Há mais coisas – há mais coisas prejudiciais às saúdes do que sonham os capatazes das serras. Ainda bandeiras azuis e vermelhas. Calam-me e o meu grito multiplica o engarrafamento. Calam-me e as mulheres alteradas sustentam a fumaça. O robô desperta do sono milenar. O homem de aço reclama lágrimas de Oz, das mais sentimentais que houver. O homem de aço ordena marchas inteiras. Mãe e filhos abraçados na varanda. Mãe e trilhos. Mãe e sarilhos. Mãe e a esperança das quermesses esperam com os filhos na varanda o pai. Tudo muito regularmente no presente do indicativo indica harmonia. Nevertheless, nevertheless, aqueles malandros comportamentalisticamente fabricam geladeiras escondidos em seus porões. No presente do indicativo indicam-se os currículos escritos a ouro em folhas de suor seco. Mímicos de toda sorte de pele e espíri…

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil

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PROPAGANDA Houve equilíbrio nesta terra. E ainda havia quando passou em revista o governador montado em suntuoso cavalo pela tropa de elite, tropa de choque, todos os soldados militares em sentido e os outros civis. Deu a eles honra. E ainda houve quando passou com olhar lancinante em passos ruidosos o primeiro comandante da capital dando ódio – inspirando potência – à tropa de gangsters, batalhão de bandidos, todos os comandados. Deu também a eles honra. E houve nesses dois fatos, matematicamente pinturescos, equilíbrio. O exemplo dado dos que protestam, o exemplo dado dos que soletram quanto se faz – até o núcleo duro desse poder copiou. Teria sido fundamental exigir que não burlassem esta arte que vos contempla porque no tempo das cavernas eu pintava na caverna minha alma de caverna em letras e eles só apreciavam. Apreciavam. Não sabiam condenar nem escrever nem criticar nem tampouco discutir signos por meio de signos. Bons tempos aqueles sem essa sorte de espiões. Sem fala, prumo,…