domingo, 29 de janeiro de 2017

João Rosa de Castro - Zum


PIANO QUEBRADO

Há palavras ditas em dó.
E pessoas que falam muito em coração.
Substantivo concreto que ninguém visita
Que ninguém adentra
Que ninguém anda ou povoa.
Ninguém e nenhuma pessoa.

Há detalhes explicados em dó.
E planilhas falsas de orçamento
Ludibriando a si mesmo.
Como é árduo ser pego a esmo
E tão vago para o ermitão não tão tímido
Viver no ermo eixo.
Tudo no formato ice.
Tudo no formato light
Bocas sensuais oferecendo beijos diet.

show de rock completo em dó.
E fibras capilares chicoteando o espaço.
Vários anjos vibrando nas guitarras e dizendo:
“Saiam todos de ré!”

Há bicicletas que pedalam em dó,
Marcam o chão da cidade molhada.
Substantivo abstrato bicicleta
Que todos carrega com dó.

Há enigmas decifrados em dó.
Por falta de luz,
Por falta de sol,
Por falta de acústica e mãos que toquem.

E no meio do entulho

Mergulhava triste o piano com o dó de fora.

domingo, 22 de janeiro de 2017

João Rosa de Castro - Zum

VISÃO DO SOLAR


Conviver com o medo soprando tragédias ao ouvido:
Será assim viver na cidade?
Será fugindo dos bandidos fixados?
Será arte isto?
Será arte?
Ardiloso olhar na tela morna.
A traição escrita, solta.
E uma folha branca de papel me resgata!
Sinto-me no lar quando vejo o teu olhar seco e pedinte.
Afago-te e vejo o meu olhar refletido.
Será arte o que te cobre.
Será arte cada letra impressa.
Será luta com soldados alados.
Será poesia pura e emoção.

domingo, 15 de janeiro de 2017

João Rosa de Castro - Zum

PRODUÇÃO INDEPENDENTE

Isto que a imaginação compõe
E o primeiro corpo com glóbulos vermelhos escreve
Sairá nanquim, sairá cinema.
Há muito não vislumbro um horizonte convincente.
Translúcida é a certeza do chão
Não há duvida.
Irremediavelmente veremos o que há.

Isto que o engenheiro pensa
E o operário com ferramentas produz
Chegará ao porto de um pais distante
Com motorizada e insana gargalhada.
A imaginação não percebe o escárnio de além-mar.
Generosa fórmula para continuar
Compondo, escrevendo, pensando e produzindo.
O resto pertence ao tempo.

domingo, 1 de janeiro de 2017

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil


PRENÚNCIO Nós chegamos. Depositamos nossas sacolas com propaganda de supermercados para propagar intransitivamente. Nós nos alojamos nas pensões da cidade escura. Agora, preparem-se os temerosos, que nossa presença de espírito não tem muito a perder. Eme, Esse e Tê querem terra ordinária e legítima. Não querem mais do que lhes caiba. A terra que, porém, reclamamos não é com os pés que se pisa, não a que se procura à deriva, não alguma que haja em mapa. A terra que proclamamos, a terra que prenunciamos não tem sequer pronúncia pois que não cabe ainda em boca que só se queira humana. Esse agrário recorte virtualmente cibernetificável, e material embora, não será o estapafúrdio novo mundo que vem do domínio popular sem nenhuma rubrica convincente, não será a prometida terra nova com suas pedras preciosas que desce dos céus, ainda. Vede nossos mijados enxovalhados mixados na mala com perfumes caríssimos. Vede nossa cara amarrada de quem revoluciona os arredores a cada passo ou palavra. Conferi nosso passaporte amarrotado e nosso português pornofônico sem nexo ou raiz. Não havemos de ir e vir desse modo estático. Não havemos de nos contentar com essa mímica milenar e esses sentimentos manjados. Pesquisamos os nossos jornais mais baratos e preparamo-nos para transmutar intransitivamente o cotidiano. Somos da fortuna intransponível do angu e altamente alfabetizados e lidos, conhecedores atentos da micro e da macro estrutura do mundo. Quem testará? Quem categorizará? Quem ousará de 1 a 10? Não cuidais que somos unidos, que se unem os que se unem contra outro corpo. Não somos concentração, somos dispersão pura e realizável. Acordai, acordai. Chegamos.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

ECCE HOMO Eis que ao sentir a vida tão intensa, O Belo avança e toma o intelecto E ao caos do mundo faz surgir um nexo Resulta-me...