domingo, 26 de março de 2017

João Rosa de Castro - Zum


A MANOEL DE BARROS

Sou feliz porque tenho poetas em casa.
Sou feliz porque tenho poetas que pressinto em casa.
Tenho poetas que aboliram a escravidão em casa.
Tenho poetas que demoliram casas em casa.
Tenho poetas que morreram em casa.
Poetas que nasceram em casa.
Poetas que participaram do carnaval em casa.
Poetas que neguei em casa.
Que ressuscitaram centenas de vezes em casa.
Que me escorraçaram em casa.
Que praticaram religare em casa.
Que partiram do simples em casa.
Que nunca subiram de elevador em casa.
Que voaram em casa.
Que me obrigaram a calar em casa.
Que me incitaram a falar em casa.
Sou feliz porque tenho poetas em casa.
Sou feliz porque tenho poetas que tiram ouro do nariz em casa.
Poetas que rezaram o terço e o quarto em casa.
Tenho poetas que se travestiram em casa.
Tenho poetas que fundaram a nova Amsterdã em casa.
Tenho poetas que fugiram de Bariloche em casa.
Poetas que amaram em vão em casa.
Poetas que enterraram tesouros em casa.
Poetas com a chave-enigma-do-ser em casa.
Poetas que abandonei ao relento em casa.
Poetas que dançaram techno em casa.
E valsas!
Tenho poetas que lavaram louça em casa.
Que trocaram fraldas em casa.
Que cantaram tudo em casa.
Que não disseram nada em casa.
Que sucumbiram em casa.
Sou feliz porque tenho poetas que nunca dormem, em casa.

domingo, 12 de março de 2017

João Rosa de Castro - Zum


CARTÃO DE PONTO

O fazer a céu aberto.
Insetos desconhecidos pousando e voando
Coloridos e negros.
E o fazer apertado, ligado – ativo.
A culpa querendo entrar na órbita
Com mexericos do passado e fofocas primaveris.
Mas o fazedor não ouvia.
E o fazer perdurava, pendurava – perturbava os desocupados.
Fazendo, fazendo, fazendo.
Fazendo como passos na orla da linda praia.
O fazer convidando com o perfume da chuva na poeira.
E os movimentos enunciados, denunciados – terceirizados – a mil
No espaço gerava o crescido, o fazido, o feito e pronto.

domingo, 5 de março de 2017

João Rosa de Castro - Zum


OUTUBRO ESCARLATE

O vício de sair praguejando.
O vício e um ar vermelho.
O vício de ouvir a canção
Louca daquela sereia.

Teia que tece um homem
Campeão por ter vida em si.
É feliz imaginar bonança
É feliz e arriscado sonhar.
Sonho com incertezas tais
Que o mundo muda de cor.

A luz em câmara lenta
A cruz que vem e acompanha
O vício em ser o que é
E o medo: saudável veneno
Rompendo a garganta, engolido.
As vontades humanas somadas
E o plano do século rasgado!
Surpresa boa e palpável
E o vício de ser pessoa.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

POEMA DE AUTO-AJUDA Noi siamo tanti Que pensamos em coro E andamos depressa Procurando a mãe Protetora de embriões. E dizemos...