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Mostrando postagens de Abril, 2017

João Rosa de Castro - Zum

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TRIBO EU

Meus dentes, minha boca inteira e o rosto. A última gota de orvalho que rebentou naquela pétala era eu. O Brasil aos meus pés sussurrava um barulhinho tão bom Que eu não tinha sede, Que eu não tinha fome, Que eu não tinha medo. E todos os ídolos que cantei, E todos os livros que folheei, E todos os pensamentos que ocultei, Esqueci. Esqueci. Esqueci. Esqueci! Eu autosciente nem sei onde vou parar. Não há poesia maior que o movimento dos meus braços.
Não há ousadia maior que a suficiência dos meus passos.

João Rosa de Castro - Zum

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A CRUZ NA TRIBO
O que aconteceu na sua casa? As luzes se acendiam e apagavam tarde da noite. Teve festa? Teve briga? O que houve? Uns saiam, uns entravam. Exasperados e vice-versa. Não desconverse. Ouviram má notícia no telejornal? No telefone?
O que aconteceu? A sua casa e a minha casa e as casas dos outros Fizeram dessa rua um inferno Que terminou com as portas fechadas. Será que estavam ligadas ao resto do mundo estas casas? Ou eram ilhas? Cada janela Com sua vista comprada para uma direção parecia um quadro cuja imagem ia mudando, ia mudando com o tempo.
E o tempo passou.

João Rosa de Castro - Zum

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EPOPÉIA PÓS-MODERNA
Edu levou o pai para longe. Edu catou a própria mãe. Edu fê-la apaixonar-se perdidamente – seduziu-a. Edu trocou-a por uma fornecedora. Edu fez a puta apaixonar-se também – e esqueceu-a. Edu casou-se com uma santa mulher, a Aninha. Edu praticou pedofilia com os filhos Edu mexeu no orçamento da união e sumiu do mapa fugindo da polícia e se achando herói. Fim

João Rosa de Castro - Zum

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ZUM
Para o alto e para frente anda ereto o velho novo homem. Se fará nas estrelas distantes o desenho que lhe cabe Isso veremos constantes pelos mapas das cidades. Se parar no meio do caminho para brigar com as pedras Ou disser que já não ama os presentes circunstantes, Para o alto ele voa e para frente ele entoa O seu grito, o seu hino, o seu poema mais louco. O Evereste ever peste, ever cura que aparece. O King-kong, king-homem que na mão carrega o mundo.
Como faz bem respirar! Como é sutil enxergar!
Para o alto, para frente, para o topo das montanhas O seu grito longe ecoa, um tarzan-homem-aranha. E os lares clareados com as janelas abertas. A arquitetura pulsante ejaculando a fumaça E a estrada longa atenta para o homem que passa.

João Rosa de Castro - Zum

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RITUAL DIÁRIO
Arroz para famintos. Feijão para distraídos. Frango na panela – quantos não gostam? Comida simples e caviar nos estômagos. Um bife que seja; Picanha no churrasco de domingo. Boys and girls absortos, e os velhos vendo comer felizes. Garfos, facas, colheres e conchas nas mesas Compõem a inesquecível literatura dos ouvidos. O povo e sua marmita recheada. O anti-povo nas filas mais sofisticadas. Todos comendo, a beijar e a olhar; No mesmo movimento: Mastigar, saborear, engolir E esperar o grande efeito alucinante.