domingo, 29 de outubro de 2017

João Rosa de Castro - Bis


BACO

O que faço se a minha pior fraqueza
Reside num corpo que não é o meu?
E para o fruto que me nutra, atravesso desertos.
E para a mais básica água, tenho de dançar a chuva.
E o meu pensamento são tíquetes.
A vida nos segundos do relógio
Fica tímida ao se ver desmascarada.
Que mundo é esse que criei!
Que labirinto!
Então eu quase nulo,
Então eu quase bicho,
Então eu quase sóbrio,
Subo umas escadas de pedra
Vejo de longe a perfeição
E volto para a temida solidão.
A vida só pode ser bela,
A vida só pode ser pura,
A vida só pode ser longa,
Quando se tem coragem para disfarçar.

domingo, 22 de outubro de 2017

João Rosa de Castro - Bis


A MINHA POESIA

A minha poesia teve toda chance de ser pura,
Mas revestiu-se de uma vegetação muito pesada.
Pôde ser uma donzela.
Encantando os tiranos e a meiga senhora.
Mas quis dançar nos palcos, cabarés.
Ela teve toda chance de ser só uma utopia,
Mas cruzou os mares e foi ser vedete em nórdicas paragens.
Ela, tão inquieta, elétrica falou
O que eu como pessoa jamais pude imaginar.
Ela foi uma corda e um nó prontos
Para me amarrar ao mundo.

A minha poesia teve toda chance de ser mãe,
Mas só quis ser filha, assim ovelha negra,
Árvore maldita, sonsa, mal amada.
A minha poesia é falsa.
A minha poesia é clubber
A minha poesia é devassa:
Nunca se apaixonou por ninguém.

domingo, 15 de outubro de 2017

João Rosa de Castro - Bis


NIETZSCHEAR

Um mundo novo para um pensamento livre.
Vias abertas para os que querem só passar.
Os que ficam são saudosos.
Os que param querem
O que ainda não foi inventado.
Os que viajam nas imagens distantes
temem o que se passa ao redor.
Os que se aquietam ao volante do carro
Seguem o caminho conhecido.
Os que descem a montanha russa
Se arrependem a cada queda.
Os que leem os jornais
Sintetizam demais a verdade.
Os que querem algo em troca
Se surpreendem com o descaso.
Os que têm boa memória
Querem muito esquecer.
Os que dizem a verdade
São exemplares e temidos.
Os que atingem audiência
Perdem o bom de dizer.
Os que tentam mudar de classe
Mudam ao menos a roupa.
Os que enfrentam a si próprios
Armam a própria prisão.
Os que fogem do destino
Encontram um destino geral
Distribuído por senha.
Os que ouvem em demasia
Se embriagam de palavras.
Os que amam demais
São surreais até nos passos.
Os que vivem na infância
Já não sabem o que viveram.
Um mundo livre para um pensamento novo.

domingo, 8 de outubro de 2017

João Rosa de Castro - Bis


FIBRA ÓTICA

Vontade para sempre inteira.
Vernáculo atrofiado.
Vontade para meio-dia.
Silêncio como palavras
E passos no lugar de gritos.
Que conduta funesta
Não dizer segredos a si mesmo.

A intertextualidade do real e do risível
Desce.
Cai.
O corpo seco engole abruptamente a certeza.
A última gota que havia de desejo
Perdeu-se na fibra ótica internética.


O passeio encantado tem gente vendendo.
Compre um alfinete, compre um dragão.
Compre uma fivela e ponha o cinto.
Compre um sonho, compre a compra.
Compre a compra da compra para ajudar.
Compre um livro de poesia para que te linchem
Por minha causa. Assuma sua vontade de ser.
Porque a tinta pensa mais a toda parte.

domingo, 1 de outubro de 2017

João Rosa de Castro - Bis


AMOR

É isto, amor, que é o amor.
A renúncia de uma vida encantada.
Surreal como a beleza da orquídea.
Possível como o silêncio vespertino.

É isto, amor, não há outro amor.
Síntese de quanto foi vivido.
Constante despedida dum oásis.
Viagem que se faz em si mesmo.
Fusão de dois impulsos: confusão.
É não perder de vista cada passo.
Impuro como o beijo que se evita.
Fantasmagórico como um sonho que se esquece.
Certo como cada meio dia.
Surpreendente para que ninguém o negue.
Misterioso para que não o decifrem.

É isto, amor, e muito mais.
Pulso que o pensamento não alcança.
Música que se ouve solitário.

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

O DIÁRIO Anda por ruas estreitas que dão na avenida. Vê os passantes apressados esperando o sinal. Frisa que sabe onde é norte – pr...