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Mostrando postagens de Outubro, 2017

João Rosa de Castro - Bis

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BACO
O que faço se a minha pior fraqueza Reside num corpo que não é o meu? E para o fruto que me nutra, atravesso desertos. E para a mais básica água, tenho de dançar a chuva. E o meu pensamento são tíquetes. A vida nos segundos do relógio Fica tímida ao se ver desmascarada. Que mundo é esse que criei! Que labirinto! Então eu quase nulo, Então eu quase bicho, Então eu quase sóbrio, Subo umas escadas de pedra Vejo de longe a perfeição E volto para a temida solidão. A vida só pode ser bela, A vida só pode ser pura, A vida só pode ser longa, Quando se tem coragem para disfarçar.

João Rosa de Castro - Bis

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A MINHA POESIA
A minha poesia teve toda chance de ser pura, Mas revestiu-se de uma vegetação muito pesada. Pôde ser uma donzela. Encantando os tiranos e a meiga senhora. Mas quis dançar nos palcos, cabarés. Ela teve toda chance de ser só uma utopia, Mas cruzou os mares e foi ser vedete em nórdicas paragens. Ela, tão inquieta, elétrica falou O que eu como pessoa jamais pude imaginar. Ela foi uma corda e um nó prontos Para me amarrar ao mundo.
A minha poesia teve toda chance de ser mãe, Mas só quis ser filha, assim ovelha negra, Árvore maldita, sonsa, mal amada. A minha poesia é falsa. A minha poesia é clubber A minha poesia é devassa: Nunca se apaixonou por ninguém.

João Rosa de Castro - Bis

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NIETZSCHEAR
Um mundo novo para um pensamento livre. Vias abertas para os que querem só passar. Os que ficam são saudosos. Os que param querem O que ainda não foi inventado.
Os que viajam nas imagens distantes temem o que se passa ao redor. Os que se aquietam ao volante do carro Seguem o caminho conhecido. Os que descem a montanha russa Se arrependem a cada queda. Os que leem os jornais Sintetizam demais a verdade. Os que querem algo em troca Se surpreendem com o descaso. Os que têm boa memória Querem muito esquecer. Os que dizem a verdade São exemplares e temidos. Os que atingem audiência Perdem o bom de dizer. Os que tentam mudar de classe Mudam ao menos a roupa. Os que enfrentam a si próprios Armam a própria prisão. Os que fogem do destino Encontram um destino geral Distribuído por senha. Os que ouvem em demasia Se embriagam de palavras. Os que amam demais São surreais até nos passos. Os que vivem na infância Já não sabem o que viveram. Um mundo livre para um pensamento novo.

João Rosa de Castro - Bis

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FIBRA ÓTICA
Vontade para sempre inteira. Vernáculo atrofiado. Vontade para meio-dia. Silêncio como palavras E passos no lugar de gritos. Que conduta funesta Não dizer segredos a si mesmo.
A intertextualidade do real e do risível Desce. Cai. O corpo seco engole abruptamente a certeza. A última gota que havia de desejo Perdeu-se na fibra ótica internética.

O passeio encantado tem gente vendendo. Compre um alfinete, compre um dragão. Compre uma fivela e ponha o cinto. Compre um sonho, compre a compra. Compre a compra da compra para ajudar. Compre um livro de poesia para que te linchem Por minha causa. Assuma sua vontade de ser. Porque a tinta pensa mais a toda parte.

João Rosa de Castro - Bis

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AMOR
É isto, amor, que é o amor. A renúncia de uma vida encantada. Surreal como a beleza da orquídea. Possível como o silêncio vespertino.
É isto, amor, não há outro amor. Síntese de quanto foi vivido. Constante despedida dum oásis. Viagem que se faz em si mesmo. Fusão de dois impulsos: confusão. É não perder de vista cada passo. Impuro como o beijo que se evita. Fantasmagórico como um sonho que se esquece. Certo como cada meio dia. Surpreendente para que ninguém o negue. Misterioso para que não o decifrem.
É isto, amor, e muito mais. Pulso que o pensamento não alcança. Música que se ouve solitário.