domingo, 21 de agosto de 2016

João Rosa de Castro - Amargo & Inútil



DESPENSA EM REFORMA Imagina uma reforma na despensa. Sempre há luz no fim do túnel, que há túnel no fim da luz. Decide, você. Ajude, tu. Vê, você. Veja, tu. Vê a despensa vazia. Tudo o que disse, tudo o que fiz, foi verdade. Tudo o que inventei, tudo o que esqueci, foi saudade. Já não caibo num país inteiro. Já uma língua-mãe me não embala. Vexa-me a naturalidade com que emissoras de sistemas de visualização à distância exibem cenas de realidades desviadas, transviadas, travestidas. Fico contrariado. Alegrar-me-ia a magnitude silenciosa e viva dum aquário. Por horas. Por horas. Depois, porém, voltaria à mente o apocalipse, a idade-média, a república, o êxodo, a democracia, o big-bang, o dia D, a diáspora, o 13 de maio, a guerra-fria, o 11 de setembro, o gênese, a queda de bastilha, o 9 de julho, todos esses dias de Jesus Cristo. Que inventaram luz e túnel. Que inventaram túnel e luz. Imagina uma despensa em reforma.

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

HABEAS CORPUS Ó Senhoras, Digam-me as horas. Hei de ir embora. Mas digam-me antes Qual rua seguir. Ó Senhoras, Digam-me as...