domingo, 17 de junho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

RODA QUADRADA

Procuro em meu ser um poema
Limpo e irretrospecto,
Doce e útil,
E não encontro.
Um pedaço de pensamento
Livre de mim mesmo,
Flutuante como plumas ao vento,
Leve como os anjos voláteis.
Procuro em mim mesmo um poema.

Preciso dum poema virgem.
Fora de qualquer movimento,
Além de qualquer momento
Sem a lembrança do vivido,
Descrevendo um jardim florido
Por força dum fenômeno novo.
Preciso dum poema morno.

Pudera escrever sorrindo
O de se ler ou sentir
Com um sentido só de agora,
De nova arte imensa aurora,
Um verbo fino e irredutível,
Nem tão feliz nem tão triste
Um tal poema eu sei que existe.




SONHOS CENSURADOS

Li A Interpretação dos Sonhos, de Freud, e precisei transcendê-la. Questionava de mim para mim por que sonhávamos o desejo reprimido. E, longe de libertar os desejos como se fossem pássaros engaiolados que me sabem ao desejo de Deleuze, resolvi retê-los ainda mais nos sonhos que os trazem, como se fossem víboras perigosas. Donde ter surgido para mim este título: Sonhos Censurados.
Porém, em vez de reprimir mais ainda os desejos, e apenas analisar o sonho como é, o livro reflete sobre a aparição desses desejos no sonho. Ingada, por exemplos, em cada sonho que analisa: por que não realizar [ou ter realizado] esses desejos na vigília? Por que o desejo havia sido reprimido? Por que geralmente convirá continuar reprimindo-o ou censurando-o, agora, depois da interpretação, de maneira consciente?
De modo que, depois de uma considerável reflexão sobre a descoberta do desejo, convinha a mim avaliar se o desejo realizado no sonho era censurável ou não – e dependendo do que, nas duas hipóteses.
Não publicaria este livro por considerá-lo assaz ininteligível, inútil e particular. No entanto, depois de ver a filósofa Olgária Matos anunciando o “desastre” que o desejo representa, resolvi repensar e considerei a publicação de Sonhos Censurados, depois de alguma revisão para torná-lo um pouco mais palatável. Poderia também alargar a perspectiva e intitular o livro de Desejos Sublinhados, mas isto demandaria mais tempo e possibilidades do que simplesmente censurar o desejo no bojo do sonho.
O modelo de Sonhos Censurados acompanha o de Freud, acrescendo porém a tentativa de censurar os desejos reprimidos de maneira consciente, no afã de realizar alguma catarse. Com efeito, Freud deve ter meditado sobre a “responsabilidade” de deixar os desejos fluírem livremente. Que adorava sonhar e interpretar os próprios sonhos.
Eu, porém, acredito ser este expediente muito arriscado. Já acreditava nisto antes de conhecer a relação citada de “desejo” e “desastre”. Pois para quem gosta de correr algum perigo, basta ler A Interpretação dos Sonhos, de Freud, que ela bastará para elucidar o movimento dos sonhos na psique. Sem esquecer, porém, que é mais fácil lidar com a consciência do que com a reputação.
De sorte que, quem for mais amigo de evitar os perigos ou de pensar na anatomia dos desastres, recomendo os meus Sonhos Censurados. Afora o fato de que a liberação geral dos desejos tem no mínimo representado uma catástrofe nas relações sociais da nossa era, sobretudo depois do advento dos feminismos, dos ativismos e da hegemonia e pretensão das militâncias.
O seu autor,
João Rosa de Castro.

domingo, 10 de junho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

A GÊNESE PARTICULAR
                                            (a Flávio Gikovate)

A aproximação de dois inteiros...
Estapafúrdia!
Utópica!
Onírica!
Imperialista!
Imoral!
Conveniência!
Ultrajante!
Delirante!
Aparências!
Calculistas!
Estelionatários!
Bicha!
Puta!
Lésbica!
Loucos!
Mórbidos!
Ingênuos!
Drogados!
Desviados!
Burros!
Capitalistas!
Burgueses!
Tiranos!
Neonazistas!
Metidos!
Moralistas!
Cruentos!
Sanguinários!
Vendidos!
Pilantras!
Maus de cama!
Mal resolvidos!
Masoquistas!
Sádicos!
Infantis!
Imaturos!
Cus de ferro!
Enrustidos!
Mercenários!
Maconheiros!
Nerds!
Problemáticos!
Egoístas!
Mentirosos!
Farsantes!
Falsários!
Coprófilos!
Necrófilos!
Selvagens!
Bichos do mato!
Caipiras!
Sórdidos!
Displicentes!
Negligentes!
Mother fuckers!
Insolentes!
Arrogantes!
Prepotentes!
Idealistas!
Mas os dois inteiros fingem não ouvir tudo isso que gritam as metades humanas desinfelizes, perdidas na visão de seu dia-a-dia vazio e monótono.
Os dois amantes inteiros vão cumprindo a promessa de se encontrarem e se beijarem no meio da maloca cultural, eternamente cúmplices do grande crime de amar livremente.
Os dois amantes inteiros são a razão e o sentido da existência humana. Respeitam-se, adoram-se, querem-se bem – virtuosos. Trocam entre si e barganham a riqueza da individualidade. Trocam entre si o que jamais seria encontrado alhures.
Trocam entre si o peso de viver, sentido de forma diversa.
Trocam entre si o alívio momentâneo de uma notícia esperada.
Trocam entre si o que no outro embeleza os dias.
Não se invadem.
Não se fundem.
Não se confundem.
Riem entre si.
Sentem inteiros.
Pensam inteiros.
Enfrentam o pior lado da alma.
Amam como podem.
Gozam como podem.
Desculpam-se.
Culpam-se.
Desculpam-se.
Culpam-se.
Sabem-se.
Aconchegam-se.
Se agradam.
Os dois amantes inteiros silenciam – sometimes – e contemplam o outro até que ele se envergonhe.
Guardam segredos.
Pedem segredos.
Compram e vendem segredos mutuamente.
São para os olhos um do outro o imenso monumento de mistério.
Nunca se negam.
Nunca se renegam.
Aceitam-se.
Ouvem atentos um ao outro.
Nunca se conquistam.
Sempre se conquistam.
Nunca se conquistam.
Sempre se conquistam.
Não se vingam – ofendem-se originalmente, porque às vezes estão desatentos.
Mas se desculpam e sublimam a frustração da ofensa. Transformam-na em um objeto de pudor.
Nunca competem.
Nunca se invejam.
Recomeçam tudo de repente.
Não são dados à tortura.
Exorcizam um do outro o medo súbito que surge.
Nunca ameaçam.
Nunca chantageiam.
Conversam e se descontraem.
Têm amigos.
Não se cobram – por que os beijos verdadeiros não se pedem.
O sexo dos amantes inteiros será eternamente complexo, nunca metódico, jamais sistemático – humano.
Quem tomará a iniciativa?
Os filhos dos amantes inteiros também são inteiros – a inteireza é hereditária.
Os amantes inteiros sempre são belos porque honestos.
Sua beleza não corrompe a honestidade.
São honestos consigo e com o outro paralelamente, simultaneamente; como se cada um fosse naturalmente dois.
Os amantes inteiros adquirem no tempo uma vaidade saciável e, portanto, sentem-se belos em todas as idades.
Acreditam que se merecem fenomenalmente.
Às vezes, se escondem dos gritos do mundo para invocarem a sua gênese particular; mas voltam para os gritos do mundo, mais vigorosos e prontos para um novo começo.
Sabem começar harmoniosamente.
Nunca são superficiais em nada do que sentem ou pensam. Pode-se ter esta impressão, pois eles sabem o momento de interromper e substituir o sentimento ou o pensamento por uma questão de sobrevivência – assim como sabem quando é bom aprofundá-los.
Sentem-se bem com o poder; foram feitos para orientar os que gritam.
Reconhecem as próprias fraquezas; porém não as aceitam.
Dando os trâmites por findos, os amantes inteiros são livres, porque sempre têm consciência do espaço que ocupam no mundo; e o mundo há que ser povoado por amantes inteiros.


A TECNOLOGIA E A CRIAÇÃO POÉTICA

Este livro era intitulado “A Tecnologia e a Composição Poética e Musical”. E, com efeito, era composto de duas partes, com a dissertação inicial do músico violonista, e mestre em letras, João Paulo Feliciano Magalhães, além da minha, que trata da Criação Poética em meio eletrônico.
Entretanto, como ele precisou se ausentar por uns anos do trabalho exercido em dupla, e, em eu tendo de publicar a obra para todos, decidi excluir a parte que tratava da música, já que não poderia responder por ela em sua ausência.
Iniciou-se como uma monografia de iniciação científica. Acolhe a poesia no mundo da ciência e da tecnologia, sem deixar de considerar sua amplitude artística, sua tradição, sua gama de possibilidades reflexivas, diferentemente da ciência, que as pode limitar.
É livro que teria levado Jean Jaques Rousseau, e sua supervalorização da virtude natural humana, filosófica e religiosa, a um ataque de nervos. Uma vez que tanto a influência da arte como a da ciência são pensadas em seu discurso como sendo deletérias para o desenvolvimento virtuoso e vigoroso de um povo.
É claro que vale a pena considerarmos essa reprovação de ambas antes de as glamourizarmos. Porém, faço aqui, mais uma vez como Nietzsche, e contorno sua reprovação, chamando a arte escolhida para análise no livro, de gaia arte, a exemplo de como o filósofo nomeia a sua Gaia Ciência.
De certo modo, o livro já se ultrapassa com os anos: os percentuais de acesso à tecnologia da informação tiveram um bum, ainda que a poesia, conforme a própria obra anuncia, acompanhe, como acompanhará, qualquer bum.
Eu tinha pensado em manter seus números atualizados. Mas creio que apenas farei uma nova revisão para uma segunda edição, no caminhar das transformações por que passa a minha obra como um todo.

O seu autor,

João Rosa de Castro.

domingo, 3 de junho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

BOCCA CHIUSA
Deixe de reter o teu gesto,
Já ouço o teu suave sussurro
E sinto o teu perfume daqui mesmo.

Da minha solidão ao teu seio
Há apenas um desejo e um anseio.

Tu, que lânguida chamas
Eu, que te afago a pele
Tão virgem do meu toque.
Nós: duas forças em choque
Num calor que se iguala
Depois do súbito contraste,
Experimentamos juntos o alívio de um sonho bom.


OFICINA DE FICÇÃO

Oficina de Ficção era para ser um compêndio, como de fato é, do que não há como ensinar. Literatura não se ensina – se vive. Eu estava apenas “tentando” fazer valer o princípio do senhor Nietzsche para o ofício de “escritor”. Este qualificativo só pode ser outorgado pelos leitores de um homem ou de uma mulher, não por si próprio. Escritor não é profissão. Não se escreve para o próprio sustento orgânico ou material, que letras não dão pão.
De maneira que a observação da vida e do mundo, nomeadamente a pesquisa, a reflexão em torno dela, sua abertura para o debate, os encontros, ir aos encontros, ir ao encontro de alguém, conversar, ouvir, falar, ler – tudo isto vem antes do escrever. E muito mais!
O ato da escrita é o efeito, nunca a causa, de uma observação. Se lesse o meu próprio texto e a partir dele escrevesse outro – estaria ruminando um alimento da alma. Se não se vive a vida, não se “vai ao encontro de”, não há motivo algum para expor apenas o imaginário. Expor o imaginário para o imaginário, já que a atividade de leitura é extremamente imaginativa, é também imaginação, é a extrapolação do ruminar. O resultado seria um produto tão fino e tão fluido que ficaria como a água: insípido, inodoro, incolor, com a desvantagem de que não mataria a sede de quem buscasse a novidade.
É por isso que em sua dura recomendação, o filósofo determina que seria necessário passar dez anos naquelas atividades anteriores e contíguas à escrita, para, só depois delas, ainda, publicar essas atividades, e depois, muito depois, ainda, poder ser considerado um “Escritor”, e neste caso talvez ele nem viva mais.
Admito que esse processo é árduo, de tal sorte que desisti no sétimo ano, pedi arreglo e “publiquei” mesmo assim. Se fosse um exercício de filosofia, teria perdido no mínimo três pontos, sem falar nos da qualidade da obra.
Por sorte, não é prova nenhuma: Oficina de Ficção tenta fazer jus e responder à brincadeira de Nietzsche com algo que pudesse ser considerado o que ele tanto buscava em vida: um eco!
Foi muito bem traduzido para o idioma inglês pela tradutora Elaine Cristina Albino de Oliveira. Também não tem apresentação de terceiros.

O seu autor,

João Rosa de Castro.

domingo, 27 de maio de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis


TRAIÇÃO IN VITRO

O céu azul amplo indecifrável
Cala-se na própria infinitude
Assim como faz a minha alma
Que pode esconder um anjo
Ou pode alimentar o monstro.
A ti em silêncio se dirige
E permite apenas o tom esquivo dos atos.
Que se pudesses conhecer tão vis segredos...
Que se não fosses tão frágil recipiente,
Se não houvesse em teu olhar a luz da ira,
Eu daria a minha essência clara e pura
Para unir-se à tua tão invicta.
Porém, o céu azul amplo e indecifrável
Cala-se na própria infinitude
Assim como faz a minha alma
Que a ti em silêncio se dirige.



A LEITURA VIVIDA

Este foi um ensaio, um esboço do que estou fazendo em Cidadania Brasileira: ler os livros alheios e dar minhas impressões ao longo da leitura.
Assim que leio Aristóteles, em Physics; Thomas Kilroy, em Tea and Sex with Shakespeare; Félix Coronel, em Como é que é; Fábio M. Said, em Fidus Interpres; Oscar Wilde, em De Profundis; Thomas Kilroy, novamente, em The Shape of Metal; Charles Darwin, em On the Origin of the Species; Eurípedes, em Prometeu Acorrentado; novamente, Thomas Kilroy, em Madame MacAdam Travelling Theatre; Michel Lahud, em A Vida Clara; João Guimarães Rosa, em Sagarana; Adam Lashinsky, em Nos Bastidores da Apple; Shakespeare, em Rei Lear e em Hamlet; outros títulos que não terminei até hoje, outros de que desisti, alguns artigos da revista especializada em tradução, TradTerm, da USP, e muito, muito da realidade que estava vivendo na ocasião de todas essas leituras aparentemente descontextualizadas entre si.
Todos esses autores, de alguma forma, fazem parte da experiência intelectual de uma fase que vivi e deve ter durado cerca de três anos.
Lembro que escrevia uma parte do livro com caneta tinteiro quando minha sobrinha, Chelidon, observou-me escrevendo e ficou intrigada. Disse: “você escreveu tudo isto sem copiar, tio?!”. Ficou assombrada, e eu é que passei a me perguntar: “será que os mais jovens não imaginam como se cria algo, não imagina que muita gente por esse Brasil escreve cartas sem copiar de nada a não ser de sua própria memória, de sua própria mente ou da consciência?”. Senti-me como se praticasse sexo e fosse observado por uma criança.
Outro sobrinho se pôs a ler um texto meu e disse: “engraçado, parece que eu vi o tio João ler um texto exatamente como este!” Fiquei sem entender nada do que deve passar na mente dos adolescentes. Faz tempo que fui um. Mereço um desconto.
A Leitura Vivida é, pois, a realização de um sonho tão simples como dormir e acordar: “ler o que me interessa sem que ninguém me diga o que ler.”.
É minha carta de alforria da servidão voluntária ou involuntária. A partir dele é que passei a criar critérios do que me coubesse ler. Às vezes entramos no concerto de um músico que não nos quer bem; aplaudimos, dançamos com seu pífaro para depois descobrirmos que não era para nós que ele foi destinado. O sentimento daí reinante é pior do que o de não nos dedicarmos a concertos nenhuns, muito menos aos que não têm vínculo com o que realmente nos interessa. Eis de que trata A Leitura Vivida, livro bilíngue, que não sei como traduzir.
Por fim, entreguei um exemplar do opúsculo, publicado virtualmente pelo Clube dos Autores, para o meu amigo de letras, Israel Mello, que também me prometeu prefaciá-lo. Vamos aguardar!

O seu autor,
João Rosa de Castro.

domingo, 20 de maio de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

ECCE HOMO

Eis que ao sentir a vida tão intensa,
O Belo avança e toma o intelecto
E ao caos do mundo faz surgir um nexo
Resulta-me a razão por fim suspensa.

As sensações do talhe que só pensa,
Ouvindo os sons distantes e incertos,
Vendo na multidão só os espectros
Transformam-se em idéia que convença.

E faço do que sinto o possível,
O exato: matemática, e anseio
Por tudo repetir e nada crio.

Então, o Belo de ininteligível
Da lógica respira e se faz feio
Qual flor que em poucos dias perde o brio.


SUPEREGO CULTURAL

Eu tinha lido, de Freud, A Interpretação dos Sonhos; Mal-Estar na Civilização; O Ego e o Id e outros Trabalhos; e, principalmente, Totem e Tabu e O Futuro de uma Ilusão.
Senti o impulso de tratar mais claramente do que o médico, ou, pelo menos, de maneira mais direta, ou popular, da religião cristã, que Freud discute nO Futuro de uma Ilusão.
O primeiro livro de Nietzsche que lera, havia dezesseis anos, fora justamente O Anticristo, no qual o filósofo condena a fraqueza e a pusilanimidade no interior do espírito da religiosidade cristã.
Já tinha escolhido, mais uma vez, as escolhas alheias. Àquela altura, da escritura de Superego Cultural, eu já vinha amargando uma relação atribulada com os meus circunstantes por supervalorizarem o imaginário da cristandade, por negarem de todo a natureza e a realidade da natureza humana, por me dizerem sempre “graças a deus”, “deus lhe pague” ou “se deus quiser”.
Era-me impossível rechaçar ou condenar a filosofia da negação da cruz proveniente do filósofo e passar a sentir-me mais um ingênuo que pudesse acreditar naquelas promessas despropositadas de 2018 anos atrás. Afinal, estava, e nascera, no “país do carnaval”.
Passei a usar o desprezo com a cristandade, tornei-me mais um pragmático, que tinha muito arroz e feijão pra cozinhar e muita roupa por lavar em vez de estar perdendo meu precioso tempo tratando de coisas supremas que me pudessem enfraquecer ou empobrecer o ânimo.
Donde haver iniciado as primeiras linhas de Superego Cultural. Um livro escrito para além de Pilatos. Nele condeno alguns conselhos supostamente atribuídos ao crucificado, demonstrados como “pedras de toque” no evangelho de Mateus. Tantos são os conselhos absurdos encontrados em apenas doze capítulos, que desisti dos demais. Achei que bastavam esses exemplos de anarquia e de fraqueza de espírito provenientes dos ministros da igreja para poder dar por concluído meu veredicto; que, por fim foi mesmo que o do retorno ao desprezo ou à decisão por um desprezo ainda maior de toda a cristandade.
Há ainda, em Superego Cultural, para quebrar o gelo, e para tentar fazer jus ao título, incursões pelo cotidiano real do narrador com o fito de tornar a obra mais palatável. Porque que é amarga, isto é verdade. Como qualquer remédio eficaz, porém.
Entreguei um original para o amigo poeta Felix Coronel produzir uma apresentação – e até hoje ainda não chegou. Vamos esperar ansiosos!

O seu autor,
João Rosa de Castro.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

O LENÇO PERFUMADO

Vil serventia do perfume deste lenço,
Que em meu corpo opera vã sinestesia,
Pelas narinas vem e toma a minha mente,
De onde foge e vai bater com o coração.
Por fim cardíaco faz lembrar ser intocável
A pele prenhe que o ostenta pelos ares.
E me fascina o rico lenço enxovalhado
Simbolizando um amor tão impossível.
Até que o tempo surge e deixa só o lenço:
Leva o perfume e então no pano é só vontade.



DIÁRIOS DE MONTANHA RUSSA

Depois eu me empolguei mais ainda com os resultados da prosa. Como um pintor que tivesse passado muitos anos desenhando sombras encontrasse o pincel e as cores.  Desacelerei bastante a poesia – que escrevera, às vezes, um poema por dia. Decidi escrever mais uma reflexão profunda e autobiográfica. Como eu podia acreditar que minha vida, essa experiência tão desprezível (aos olhos de tantos) fosse algo interessante?
Nietzsche: Nesta fase já tinha lido e relido toda a filosofia vibrante do filósofo. Minha psicanalista: já saía das sessões suspirando com o desabafo. Tinha lido um pouco da literatura brasileira, cuja ausência nos primórdios fora motivo de grande frustração. E por mais que eu leia hoje o que há de bom em literatura brasileira, ainda não me conformei de todo por ter lido Lair Ribeiro e Paulo Coelho, nos fins da adolescência.
Esta biografia teria se intitulado Montanha Russa. Porém, quando estava prestes a publicar virtualmente, li em alguma parte que a senhora Marta Medeiros tinha escrito um livro com o mesmo título. Dissuadi-me dele e, lembrando daquela bobagem dos Diários de Motocicleta, inseri os Diários no título, criando por fim os Diários de Montanha Russa. E era assim mesmo que eu me divertia nos parques de diversão: sempre pensando na arte quando me assombrava com os solavancos dos brinquedos. Por outro lado, observei que neste longo livro, com mais de trezentas páginas, a vida se me afigurava desta forma: subia e descia e voltava e caia e se re-estabilizava, etc.
É nele que eu volto para o Brasil-colônia e lavo roupa suja em público. Falo da relação com os meus irmãos, da vida em família, dos momentos de ira e de apaziguamento. Da minha relação tão afetuosa, e, às vezes, tão surpreendente com minha mãe, com quem passo a maior parte do tempo. Dos encontros e desencontros da vida urbana, do calor e da frieza com o mundo, da miséria e da grandeza que é viver a vida.
Como já tinha escrito um ensaio de autobiografia meio que descontrolada, no Santa Maria d’Oeste, decidi-me a adicionar algum método nesta própria. Assim, os acontecimentos que incluo nos Diários de Montanha Russa abarcam um período exato de um ano de vida. Como se recortasse um ano para dizer ao nobre leitor quem eu poderia ter sido nos anos anteriores e poderia ser nos posteriores através da observação daquele ano em específico.
Ainda, no plano da forma, quebrei o modo como se se apresentam as datas e os lugares, criei nomes para todas as cidades: até para a cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, numa tentativa de apreender tudo, tudo, tudo – de forma nova.
Mauricio R B Campos, um dos meus veneráveis mestres, leu o livro e disse ser “agradável”. Não entendi muito bem o que quis dizer com o qualificativo. Eu quis que o livro agradasse menos do que surpreendesse. Porém como é insistente, para não dizer “persistente”, talvez tenha se tornado enfadonho, reduzindo aí a possibilidade de que alguém pudesse se surpreender com algo muito extenso ou muito prolixo.
A Doutora Maria Alice Paes tremeu na base, mas escreveu o prefácio, conforme eu pedira. Eu tinha pedido a outra pessoa, que, porém, por ser da família, preferiu não fazê-lo. Mas a médica arriscou transpor os receituários, prontuários e compêndios de psiquiatria e redigiu uma apresentação concisa, porém muito importante.
Ganhei de Mauricio R B Campos o moral para traduzir este pequeno gigante para o idioma inglês, e hoje ele está sendo traduzido para o espanhol, por Verónica Santos, na Argentina; breve poderá, portanto, ser lido também pelos amigos hispanoparlantes.
Sendo tudo assim, aquele ano fatídico dos Diários de Montanha Russa comprovaram que a vida de um brasileiro medíocre também pode ser interessante, mesmo vivendo numa cidade poluída, em vários sentidos, como esta, mesmo atravessando as aventuras da desendinheirança, da guerra interior e exterior dos sentimentos, o tédio de ter de lidar quase totalmente com pessoas da família e do trabalho, mais virtualmente do que na presença mesma, estar só no meio de uma multidão e fazer da solidão um grande carnaval: foi este o livro que me tornou um destino.
O seu autor,
João Rosa de Castro.

domingo, 6 de maio de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

MELANCOLIA

Ser livre e sorrir
Na amplidão de um sonho.
Ser leve e voar
No finito entardecer.

Toda felicidade que se busca é interna.
Lá vai o homem feliz e sem face
Com o seu eu perdido entre amar e não amar,
Na pura angústia de ser não sendo.

Toda existência que se move é eterna.
Ele quer se distinguir de si mesmo
E encontra um outro em si, que acena.

Ele já não pode ir nem ficar.
Sua leitura de mundo é confusa,
Seu silêncio é uma orquestra,
Seu pensamento o seu algoz.

Seu delírio emerge dum reles acontecimento
E ganha dimensão extensa.

Quiçá uma carícia,
Quiçá um abraço,
Quiçá um beijo,
Quiçá um orgasmo
Seja o marco dos seus dias.

Morrerá e será esquecido.
Antes, porém, sofrerá.
Antes, porém, sorrirá.
Antes dará festas homéricas.

De um gozo a outro vai pensar.
E projetar edifícios,
E comandar soldados em guerra,
E derrubar o arquiinimigo
E conquistar territórios.
Tudo às cegas,
Tudo às pressas,
Tudo se repete.

Ser livre e sorrir
Na amplidão de um sonho,
Só assim será um rei,
Pois quando acorda
Se perde,
Se ama,
Se odeia,
Se escraviza,
Não tem nome,
Não tem sangue,
Não tem raça
Não se enxerga sequer ao espelho.



SANTA MARIA D’OESTE

O livro Santa Maria d’Oeste surgiu em 2006; depois da empolgação com o lançamento de Post Scriptum, o qual, como o próprio nome sugere, teria sido o último livro que eu escrevia, depois de uma série de livros de poesia. Nunca tinha imaginado que pudesse escrever em prosa. Tinha versejado desde 1992. Pensava que só sabia fazer verso.
Mas o ano de 2006 não terminava nunca. Depois de Post Scriptum, fiquei pensando que talvez pudesse escrever um desabafo. O contexto era o do Partido dos Trabalhadores no governo, encabeçado pelo então presidente Lula. Nós os letrados estávamos com a corda no pescoço. Quem tinha emprego eram os Trabalhadores de fato e de braço.
Eu estava na transição dos números para as letras. Atuara desde 1990 como auditor de receita e concluíra o curso de letras, sem que quisesse o magistério. Queria, como o nome me induzia, as Letras em si: tradução, revisão e pesquisa. Iniciara o curso de mestrado na USP, com a professora Munira H. Mutran, mas precisara interrompê-lo.
A partir desse primeiro desabafo, todos os livros que escrevi depois representam uma grandessíssima brincadeira. Santa Maria d’Oeste, por exemplo, é o que não me coube dizer nas sessões de psicanálise durante aquele ano. Imagine, pois!
Mas representa também a desmistificação do escritor, sempre envolto em uma redoma de vidro, como se fosse inacessível e transcendental, quando, de fato, é mais um profissional que carece tanto do produto básico da natureza para levar sua vida como um comerciante.
Santa Maria d’Oeste é a revalorização do destinatário do conhecimento. Como se o leitor fosse um médico – o psicólogo que cada um traz dentro de si. E se o verso nos livros anteriores já me poderia ter sido um delírio, a prosa poderia ser mais delirante ainda. O leitor supostamente vive são. Tão são quanto a Santa Maria d’Oeste. Não o escritor, sempre envolto em sua incurável e eterna enfermidade do “querer dizer”.
Traduzi para o idioma inglês, publiquei pela Editora Scortecci e atualmente o livro é divulgado pela Babelcube mundo afora.

O seu autor,

João Rosa de Castro.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

RODA QUADRADA Procuro em meu ser um poema Limpo e irretrospecto, Doce e útil, E não encontro. Um pedaço de pensamento Livre d...