domingo, 12 de agosto de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis


FILOSOFIA TROPICAL

A Mário, ares nordestinos,
Ditirâmbicas brisas, revigorando a manhã.
Passagem livre pelas portas bem trancadas.
Idéias tranquilas em trágicos desenlaces.

A Carlos, alegrias carnavalescas.
E dionisíacos arautos nas tardes de pensar.
Eterno retorno ao sorriso que ensinaste a ostentar
Imagens puras de purpúreas artes.

A José , a atmosfera dos bares,
E as vitórias mais poéticas que uma vida tivesse.
Ampla visão da montanha, sonhos que enaltecem.
Sons suaves e hinos de novas claves.

A Jacó, um samba sobre o infinito
E lépidas esperanças no caos que cria o sereno
Assista em teu peito perene a dócil beleza dos dias
Ritmos nobres e danças de novos mares.



domingo, 5 de agosto de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

SCRIPT DA HISTERIA

Os seres acorrentados às casas
As casas presas à Terra
Estiram-se os braços ao toque frenético
Da ponta dos dedos.
Os malditos explodindo suas gargalhadas
Portas batendo.
Casais delirando sincronizados.
A loucura com todos os matizes.
Os paraísos chamam para si,
Os infernos chamam para si,
E os ânimos se perdem.
O imoral reza em temor e candura.
O moral mata com prazer e licença
As árvores conversam entre si num tittle-tattle,
E deixam de estalar os beijos públicos
Os eu-te-amos petrificam.
Ligam a TV e viajam o globo
Estirados no sofá
Da mesmíssima sala de estar.



domingo, 29 de julho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis


SAMBA-CANÇÃO

Asma contra o céu
Céu contra a asma.
Vai e vem o fôlego
Lembranças de vilas.
Será sempre uma fuga
De si mesmo e do mundo
Achar-se sem nome
Em dias de esperança.
Distribuir os monstros
Da velha História
E refrear o poeta
Que queima sua pena
Em atrito papel.
Célticos gestos
Formatos de rostos
Familiares e à parte.
Arde a saudade
Da imaginável Liberdade,
De flagrar feminil,
No monumento quase-humano,
Um homem a sentir,
Um homem a temer
Um homem a chorar.

Febre contra a chuva
Chuva contra a febre,
Que a virgem aldeia é hibérnia
E o lado tecnicolor
Do meu pensamento
Tem chaves e fechaduras rijas.
O delírio ora embala
Ora lobotomiza.
Isto que se ouve é só o eco;
A voz original é matutina
Será sempre um lamento
De quem sonhou e acorda
Para os desencontros do dia.
Ó – uma ideologia
Tomando as vísceras
E formulando as vontades.
Ó – preparam-se anjos
Para perderem suas asas,
Suarem globalizados,
Integrarem-se democraticamente.
Eita! Que as ilusões da grana
Forçam a mentir o ser honesto,
Já cansei de dizer que não presto,
Para canalizar almas.
Canto para os homens pássaros, marinhos...
Sinto para as mulheres répteis, felinas...
Festas, turmas proibidas,
Penso para que o tempo passe.
Toda verborragia é pouca
A quem fez isso com o mundo.
Não ouse perguntar “Isso, o quê?
Por entrelinhas, nenhum poeta se culpa.

Estrelinhas que oscilam no céu,
Não odeiem a Dalva, nem o sol nem lua.
As revoluções que fizerem
Vão deixar o céu horroroso.
Estrelinhas que oscilam burguesas
Sejam sempre estrelinhas,
Nunca vai se apagar
O brilho falho que ostentam
Nunca vai se apagar.

Taquicardia contra o amor
Amor contra a taquicardia.
Tudo o que fazem os arranha-céus
É se penetrarem para o orgasmo,
Querem o orgástico bigue-bangue
Na eterna mimese de “Deus”.
A farra tão passageira,
Canhestra farra a diesel
Anexa terras a farra
Que os passos nunca alcançam.
Do outro lado, um silêncio
De tardes primaveris.
Sorrisos contidos nas naves
E os sambas-canções emboloram
No fundo da gaveta dum closet.




domingo, 22 de julho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis


POEMA DE ALÉM-MARTE: AOS NAVEGANTES DO FUTURO

Para esquecer todas as palavras alheias,
Ver, numa tela, toda a literatura recriada,
No escuro do próprio ser,
Onírico cinema de cenas e sons,
Do pulsar do próprio sangue.

Para desprezar as acusações dos semáforos
De que é preciso amor para parar no caminho.
Porque tudo o que passa de um é uma ácida ilusão.
Um mais um são uns abraçados no ar
Antes de soltarem os paraquedas.

Para purificar ainda mais ainda o que já está puro
Para as manhãs de sol e céus sem nuvens.
A sexualidade entre os pés e o solo (em choque)
Ultrajando as morais e as mais morais das morais.

Rebolam-se, requebram-se, balançam-se as saliências do corpo,
Os cabelos, os braços, se rebolam. Arse ‘n’ boobs.

Para entender todos os signos do blá-blá-blá
E fingir que Zaratustra jaz nos vácuos.
Porque somos só superstições,
Somos só abstrações,
Só éteres,
Bolinhas de sabão.


ENSAIOS WILDE


Quando eu pesquisava sobre a sexualidade, o que me sucedeu desde muito criança, algo que me chamava a atenção era a relação entre crianças do mesmo sexo. Proibida sempre. Desejável sempre. Sempre polêmica.
Quando adolescente, lia os livros, ingênuo, e achava que se no princípio não encontrasse a palavra “homossexualidade” ou correlatas, não valeria a pena ler – era a minha pesquisa, o objeto da minha curiosidade.
Só depois de traduzir três ensaios de Oscar Wilde, do inglês para o português, é que interrompi, por muito tempo minha pesquisa sexual. Os ensaios são Caneta, Lápis e Veneno; A Decadência do Mentir; e A Alma do Homem Sob o Socialismo.
Apesar de andar sempre na minha individual campanha contra os estrangeirismos, numa forma de proteger a produção brasileira, arrisquei nessa tradução no afã de conhecer o tão falado dramaturgo e literato.
Como tradutor, temos de engolir absurdos. Temos de dizer o contrário do que pensamos. Temos de ser fiéis e abandonar a beleza, muitas vezes. Por outro lado, descobrimos muita coisa que pensávamos e sentíamos e de que havíamos nos esquecido. Sabe quando escondemos um dinheiro grande, esquecemo-lo, e no momento da miséria damos com ele? Traduzir também é isso!
Com Wilde, não encontrei nada sobre “homossexualidade”, salvo pela experiência da própria vida que ele levou e pelo fim que teve, fim miserando em Paris, como muitos fins.
Mas ele era macho! Os desejos que tinha, ingênuos como todo desejo, não interferem em nada na grandiosidade de sua obra, a despeito da defesa do socialismo.
Se eu for considerar uma conclusão para minha pequena pesquisa sexual, que partiu da infância, terá sido a experiência com Oscar Wilde.
O resultado do poder às avessas do dramaturgo foi a miséria. A ruína foi o grand finale depois do uso do poder de maneira desnorteada e desnorteante. A obra recebe o meu elogio, porque toda obra merece. Mas o homem não terá minha defesa. Traduzi-o e sinto-o na verdade um traidor.
A rainha Vitória teve razão com sua punição. A obra de Oscar Wilde, sua sífilis, o modo como teve de deixar a mulher e os filhos, sua pseudoliberdade foram prejudiciais a ele, à família, à época e ao mundo, quando consideramos seu fim, semelhante a muitos fins sexualizados de nossos dias. Vida longa à Vitória! A tradução dos ensaios dedico a ela e são uma defesa de sua mão de ferro e de paz!

O seu autor,

João Rosa de Castro



domingo, 15 de julho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

O MACRO-AMOR

Um encontro de idéias paralelas
E o brilho nos olhares que se buscam.

Eu te amo
Em todo o entrelaçamento possível das solidões,
Em todo o ar expirado a partilhar os ares do mundo
Na pura nobreza das ruas encardidas, sem destino.
Na profunda tristeza impregnada nas atmosferas palacianas.
Virginal impulso no afã de imortalizar a sua essência.

Amor surgido da trágica parafernália do tempo.
Amor perenal e invicto – imune a toda ira (sua) repentina
Com seus vestígios nos meus gestos, nos meus passos, nas minhas palavras. 
A linguagem com que me leem do topo dos montes e do fundo dos infernos.
Um estratosférico sim orgástico aliviando.
Macro-amor desenhado no destino.
Amor desixorribonucleicamente composto
A nutrir-se da lembrança do seu perfume, da sua voz, da sua pele – sua possível imagem.

Eu te amo
Para além das espirais dos seus cabelos,
Para além dos seus fluídos no meu corpo,
Livremente para o que possa sentir
Enquanto nossos olhares se buscarem.


ANTES DO CREPÚSCULO

Eu jurava que não faria de mais nada (ou pelo menos não de tudo) um compromisso. Mas o eminente professor e teórico Massaud Moisés foi-se embora. Não fui ao seu funeral. De forma que se o vir pela frente apenas direi: “mentiram”, ao que ele responderá: “mentiram, estou vivinho da silva”.
Enfim, parece que morreu mesmo. E agora com sua morte nasce a sua “totalidade”. E se for de totalidades alheias que vivemos, já que é aparentemente impossível viver da própria, decidi rever algumas de suas doutrinações.
Deparei com suA Criação Literária e me interessei por três assuntos: “o conto”, porque estava como ainda estou envolvido em Mosaicos Urbanos, de Mauricio Campos; e “a crítica” e “o romance”, em função do opúsculo que venho redigindo a conta-gotas – elencando todos os considerados “melhores autores” da Literatura Brasileira – numa breve análise de um romance (ou outro gênero literário) de cada um deles.
Logo na leitura d“o conto”, que configura a primeira parte do livro do Moisés, fiquei tão entusiasmado com a afinidade que sempre encontro nele desde os tempos primaveris da minha pena, que decidi escrever este livro que se inicia aqui.
Não sei se a crítica e os leitores de hoje o dirá um livro de contos como considero os textos que o compõem. Mesmo assim, fica registrada mais essa tentativa de entreter engajando e de engajar entretendo; do contrário fica apenas para os anais da Literatura Brasileira.

O seu autor,

João Rosa de Castro

domingo, 8 de julho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

O RIDÍCULO

O ridículo abre a porta e invade o espaço.
Como é bom rir, dando vazão à utilidade.
Mas o ridículo é tão inútil.
Mas o ridículo é tão hipócrita
Que já não cabe em nenhum ambiente.

Com o tempo, quando ele vencer pelo cansaço
Do seu fedor de nicotina,
Do seu olhar doente e distante,
Do seu silêncio avaro
E sua voz tão sublime e econômica,
Sucumbiremos a ele compadecidos.

Ele, tão inerte,
Tão pernóstico,
Tão underground,
Fará de conta que é amado,
Mais do que faremos que o amamos.

Oh, meu “Deus”, por que esses seres horripilantes resistem tanto às conspirações? Não disseste que a nossa voz era a tua voz? O que faremos com essa criatura que não ouve voz alguma, como se os seus sentidos subitamente ficassem suspensos a uma altura que não alcançamos?

O ridículo saiu e não percebeu absolutamente nada!


SEDA RAIOM

Não sou bairrista nem tão saudosista para desejar estar nas Perdizes novamente, nem viver os anos 30 ou os 50. Gosto da Vila Curuçá hoje, e o melhor está por vir. As pessoas daqui são tão severas quanto alhures. Com a diferença de que com a proximidade com a Arena Corinthians, temos batucada, cervejada e churrasco quando o timão vence, o que, graças ao meu pai, acontece com frequência. Com outra diferença: as pessoas daqui se sentem mais solitárias, muitas abandonam o bairro, como eu abandonei por uns anos. Depois retornam, e vem o paradoxo. Ou ficam por lá mesmo – e vem a identificação contraditória.
Abandonamos quando queremos diversão. E a Vila é lugar de trabalho e reflexão independente. Restou-me apenas um amigo a quem poderia revelar alguns segredos escabrosos e de quem ouviria outros tanto quanto. Uma jornalista, conhecida das imediações, disse-me uma vez que por aqui não há ninguém com quem se possa travar uma amizade.
É assim, nós vivemos nos odiando e falando do tempo como se fôssemos meteorologistas, e de futebol como técnicos. Ouço e leio gente que se pensa badalada, porque está falando na mídia, que as periferias como a nossa “têm gente muito boa”. E fico me perguntando (sem acesso à mídia, é claro!)… Que tipo de gente as pessoas pensam encontrar na Europa, na Ásia, na Oceania, por exemplos?
Creio que nos colocam como extraterrestres porque “estamos longe”. No entanto, confesso que hoje me sinto confortável porque me sinto mesmo é longe do populacho. Aqui só tem gente fina. Gente que não se mistura: seja na favela seja no condomínio mais bem-arranjado.
Quando usamos o serviço público, somos mais críticos dele do que o Antônio Cândido era da literatura brasileira. E é assim que nasce o Seda Raiom.
O livro tenta arriscar numa avaliação de como me parecem as gentes da Vila Curuçá, sua cultura, sua arquitetura, sua música, seu comportamento, indumentária, alimentação, etc.
E cada vez que leio a obra me encanto mais com estas gentes, quer apareçam carrancudas e fechadas ou desabridas e engraçadas – é gente como qualquer gente que se acha pelo mundo, mas é uma gente única, porque é a gente Curuçá: meu berço, minha ciclovia, meu parque, meu sertão.

O seu autor,
João Rosa de Castro

domingo, 1 de julho de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

TITÂNICAS SAUDADES

Diz, meu monstro escondido.
Que queres dizer?
Que és nascido na barbárie?
Isso a mim não é novidade.
Diz algo novo, meu monstro.
Sei que quando falas és nutrido
De uma esperança de ser,
Mas adianto: não serás.
Quero apenas que me contes
A tua chateação deste momento,
O que se passa no teu duro coração,
As imagens que vês, trancado no escuro.
O que pensas em destruir,
A alegria que tentarás corromper.
Diga, meu monstro escondido,
Que queres lamentar?
O impossível elogio da tua utilidade?
Tu és a fonte de toda espécie de vergonha.
A moral à espreita
Tenta distinguir-te,
Tenta extinguir-te.
Tu não tens lugar no mundo sem arte.
Seria preciso enlouquecer metódico.
Seria preciso desistir por completo de respirar os ares da vida
Para que tu assumisses o poder que me pertence...
Mas rezam os ecos da natureza:
“Os monstros são os meus anjos na escuridão”.


ORDEM E RETROCESSO

A ordem deste romance futurológico e, ao mesmo tempo, histórico não leva ao progresso, assim como muitas ordens que pretendemos progressivas.
Não é matemática a natureza da vida em sociedade. Essa causa e efeito são apenas inferidas na ilusão. Nossa barbárie não permite mais pensarmos em causalidade. O mundo ficou surreal como uma obra de Salvador Dali. Augusto Comte perde contato com a realidade a cada esforço que alguém tenta fazer para obter “progresso”. Ao mesmo tempo que o lema de nossa atual bandeira permite pensarmos melhor aquele livro do Eclesiastes – mais realista do que o positivista francês, apesar dos fumos científicos.
Com isto quero dizer que, tanto é certo que alguém que mantenha a ordem obtenha daí o retrocesso, como o é que alguém que mantenha a desordem obtenha o progresso. Principalmente depois do feminismo. Apesar de que a nossa natureza não impeça que alguém também obtenha, eventualmente o progresso resultante da ordem ou o retrocesso da desordem.
Por isso que me foi, não apenas fácil, como também agradável escrever Ordem e Retrocesso, e escrevi-o em menos de um mês, de um só fôlego. A tirar o maior sarro do passado, do presente e do futuro: da lógica e de Logos. A escolher para limite, no plano do conteúdo, a primeira hipótese do parágrafo anterior.
É meu segundo romance. Tem seus limites como todos os meus livros. Aliás, como todos os outros, tem mais limites do que métodos. Se é que se pode separar método de limite.
Também foi para avaliação no segundo prêmio da Amazon. Sem nenhum progresso, aliás. Mesmo assim, faz muito sucesso no círculo conjugal entre mim e os amigos. Agora participa do prêmio São Paulo de Literatura e será traduzido na época devida.
O seu autor,
João Rosa de Castro

João Rosa de Castro - Amor Grátis

FILOSOFIA TROPICAL A Mário, ares nordestinos, Ditirâmbicas brisas, revigorando a manhã. Passagem livre pelas portas bem trancadas....