domingo, 16 de setembro de 2018

João Rosa de Castro - Persona Non Grata


HABEAS CORPUS

Ó Senhoras,
Digam-me as horas.
Hei de ir embora.
Mas digam-me antes
Qual rua seguir.
Ó Senhoras,
Digam-me as horas
E a horta onde encontro
Couve, escarola.
Não me falem dos números,
Dos bilhões de reais.
Digam-me o chá,
O xarope que sara
Minha tosse, meu choque,
Minha contínua morte.
Ó Senhoras
Digam-me as horas
E me entreguem aos homens
Que aguardam lá fora.
Ó Senhoras.



domingo, 9 de setembro de 2018

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

TRIGO

Sem arte.
Sem pão.
Sem sermão.
Sem pensar.
Tudo na ordem natural.

Sem plano.
Sem planta de casa.
Sem mapa.
Sem vergonha.
Tudo na ordem natural.

Eu prendo-me ou corro

Sem vítimas.
Sem dívidas.

Sem repetir:
Quem vai, vai;
Quem volta, também vai.
Sem expectativas.
Tudo na ordem natural.

Sem grana.
Sem cinema.
Sem dúvida.

Todos os transeuntes são meus ídolos!

Sem autógrafo.
Sem fotografia.
Sem escândalo.

Ou pego o besouro;

Sem vexame.
Avenida Águia de Haia.
Avenida Imperador.
Sem dor.
Tudo na ordem natural.

Seis artes.
Seis artes!
Sem sete.
Sem oito.
Sem mentira.
Sem nome.
Sem fome.
Sem concordância verbal.
Sem coerência civil.
Tudo na ordem natural.

Sem pós-conceito;
Mudar – transferir o pensamento para a próxima imagem.
Sem pré-conceito.
Sem fugir.

O rio rasga-se – dois torna-se;

Sem muito medo.
Sem muito orgulho.
Sem inteligência.
Sem pânico.
Tudo na ordem natural.

Mergulho no silêncio do imenso oceano.

Sem tédio.
Remédio!
O ornitorrinco vê menos gente.
Sem a mente mentindo,
Só o coração batendo.
Tente, tente, tente.
Sem peso.
Leve, leve, leve.
Sem desespero.
Tudo na ordem natural.
Eu torno-me um dos dois que era.

domingo, 2 de setembro de 2018

João Rosa de Castro - Persona Non Grata


ESQUECIMENTO

Cansei-me dos desejos velados.
Cansei-me dos impulsos confessos.
Feche os dedos mas não tanto, Maria;
Dói-me nas profundezas das vísceras.
Sou parte abastecida pelo todo;
Sou quase todo parte.
Se me fosse de direito
Pediria abrigo, comida e roupa.
Se me fosse de direito
Reclamaria mais beijo.
Rãs – hoje exijo silêncio no brejo.
Cães – hoje ordeno findo o cio da cadela.
Silêncio.
Todos andando ao meio-fio sem ruído de passos:
Guardo as minhas próprias gargalhadas para amanhã.
Cansei-me dos pensamentos inertes.
Cansei-me de emoções infundadas.
Oxalá não esqueça as cores da bandeira, o meu endereço, os apetrechos de barba, o meu nome, minha cor; minha dor…


domingo, 26 de agosto de 2018

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

SANTA

Uma palavra pára dez mil pensamentos.
Uma coisa:
“No princípio era a coisa,
E a coisa fez-se verbo.”
Uma coisa para cem mil pássaros cruzando o horizonte.
De repente,
De repente, paro.
Canso-me.
Descanso.
Não há ato mais pesado e forçoso do que pensar!
Não penses, moço.
Não!!
Não penses gratuitamente.
Teu pensamento vale muito mais do que ouro provado no fogo.
Não penses grátis nunca mais.
Um pensamento cala dez mil palavras…

domingo, 19 de agosto de 2018

João Rosa de Castro - Persona Non Grata


PRA NÃO DIZER QUE NÃO É ÚTIL O SAMBA

As emaranhadas ideias que esculpiste não são geleiras ao sol.
Brincas com as crianças certas, pois não há crianças erradas.
Loquaz senhor.
Loquaz senhor.
Vives de obséquios tecnológicos.
Trocadas mãos humanas por hardware;
[por hardware!]
Trocadas razões humanas por software;
[por software!]
Há tempo para refletir com os amigos!
Há tempo para jogar futebol de salão!
Há tempo para falar ao jantar.
Depois do jantar.
Traduzes teu genoma qual idioma distante.
Sobra grana para namoradas.
Sobra grana para temporadas.
Viverás até mais de noventa.
Que te parece? Que te parece?
Morte distante – vida presente.
Há tempo para preces.
Há tempo para promessas sacras.
Enquanto ciência se confunde com arte, com arte se confunde, se confunde.

As emaranhadas ideias que revelaste alegram a geração vindoura.
Tu manipulas a vida que nem pipa.
Empinas as pipas leves, pois não há pipas pesadas.
Sambas os sambas úteis, pois não há sambas inúteis.
Jovem senhor.
Jovem senhor,
O mundo a ti pertence.
O mundo a ti pertence…



domingo, 12 de agosto de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis


FILOSOFIA TROPICAL

A Mário, ares nordestinos,
Ditirâmbicas brisas, revigorando a manhã.
Passagem livre pelas portas bem trancadas.
Idéias tranquilas em trágicos desenlaces.

A Carlos, alegrias carnavalescas.
E dionisíacos arautos nas tardes de pensar.
Eterno retorno ao sorriso que ensinaste a ostentar
Imagens puras de purpúreas artes.

A José , a atmosfera dos bares,
E as vitórias mais poéticas que uma vida tivesse.
Ampla visão da montanha, sonhos que enaltecem.
Sons suaves e hinos de novas claves.

A Jacó, um samba sobre o infinito
E lépidas esperanças no caos que cria o sereno
Assista em teu peito perene a dócil beleza dos dias
Ritmos nobres e danças de novos mares.



domingo, 5 de agosto de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

SCRIPT DA HISTERIA

Os seres acorrentados às casas
As casas presas à Terra
Estiram-se os braços ao toque frenético
Da ponta dos dedos.
Os malditos explodindo suas gargalhadas
Portas batendo.
Casais delirando sincronizados.
A loucura com todos os matizes.
Os paraísos chamam para si,
Os infernos chamam para si,
E os ânimos se perdem.
O imoral reza em temor e candura.
O moral mata com prazer e licença
As árvores conversam entre si num tittle-tattle,
E deixam de estalar os beijos públicos
Os eu-te-amos petrificam.
Ligam a TV e viajam o globo
Estirados no sofá
Da mesmíssima sala de estar.



João Rosa de Castro - Persona Non Grata

HABEAS CORPUS Ó Senhoras, Digam-me as horas. Hei de ir embora. Mas digam-me antes Qual rua seguir. Ó Senhoras, Digam-me as...