João Rosa de Castro - Adeuses

A TESTEMUNHA DO TEMPO

A testemunha do tempo, mecânico tempo,
Teve vergonha do que vira na cidade, sombria cidade.
Foi ao parque, foi ao banco, foi à feira.
Teve mulheres,
Amou as mulheres,
Odiou as mulheres,
Encontrou as mulheres nos braços de astronautas.

Não aprendeu a viver,
Não aprendeu a orgia filosófica
Que de longe se assistia nas janelas.

Ficava na sala, dizendo com o teclado
O que os antigos só diziam com beijos.
O que os antigos só diziam com beijos.

E uma bala de revólver, anatômico revólver,
Procurava sua testa.

A testemunha do tempo não sabia mais
Como desenhar o mundo no seu pensamento.
Teve receio do que vira no espelho, geográfico espelho.

Mas ninguém quis saber o que vivera.
Fez anotações e redigiu ensaios em vão.

A testemunha do tempo podia ter sido apenas homem…

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