João Rosa de Castro - Alma Nua


MAL NOVO

 

Surge repentino, explode no seu pensamento o nome da doença que matou seus heróis: Heterofobia. Heterofobia. Segue-se uma gargalhada: - Heterofobia - Heterofobia.

- Isso não se confunde, antes se distingue, é misoginia.

- Não, doutora, não. As mulheres, em si, encantam e satisfazem. Os homens, em si, alegram e saciam. O problema é quando se unem. O amor é a causa. O ódio ao amor é o primeiro sintoma

- Mas isso deve ser inveja do casal.

- Não, doutora, não é não. Invejar é não querer que o outro seja feliz. Mas os homens e as mulheres juntos não são felizes. A raiz desse mal novo é a consciência da infelicidade contagiosa. O risco de se contaminar. O heterófobo tem arrepios ao ver o casal de mãos dadas, rumo a uma desgraça certa.

- Mas “ele” também existe a partir dessa relação. Isso parece pulsão de morte. Essa figura sofre antes de biofobia, que é um mal antigo.

- Mas se os homens se beijassem, isso entristeceria o biófobo, mas alegraria o heterófobo. A doutora está evadindo à doença nova.

- Não estou. Quero saber se é nova mesmo ou uma antiga disfarçada em nova. Isso de se alegrar com dois homens se beijando parece hedonismo, busca de prazer, que também é um impulso velho.

- Mas, doutora, a busca do prazer é bem diferente do horror do desprazer. O sujeito pode ser hedonista e ainda ser indiferente ao mundo hétero. O que não ocorre com o novo doente, que tem calafrios da idéia do matrimônio.

- Alguma coisa da infância.

- Deve haver muitas infâncias parecidas.

- A homofobia existe.

- Então, os heterossexuais podem ter aversão aos gays com direito a designação e tudo, como dizem: homofóbico. Agora os gays estão começando a devolver a aversão, numa projeção que culmina com a vingança: o heterofóbico.

- Mas parece que, por exemplo, no caso dos homens homossexuais, eles ficariam sem o encanto do masculino, do viril autêntico, que, de resto os atrai.

- Para o sexo sim. Mas está surgindo o novo gay, que além da alegria, também quer amar e conviver.

- Se quer amar e conviver porque não fazê-lo também com os héteros? Percebo um paradoxo nesse impulso à heterofobia: sobretudo entre essa perspectiva de querer conviver e a doença em si. Será que essa nova figura quer se fechar num mundo só gay e nele “amar e conviver”. Entre iguais isso é muito fácil. Todo mundo se entende, de certa forma.

- Justamente esse contrassenso me faz chamar isso um grande mal a se tratar.
- É verdade. Assim como os outros males são tratados, desde a biofobia até a homofobia, extremos opostos, já que na biofobia temos a aversão à espécie e na homofobia a aversão à não-espécie: dois homens não procriam. Vamos tratar esse mal novo.

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