João Rosa de Castro - Alma Nua


AS MIL E UMA MORTES

 

E se eu morrer de repente, sem que ao menos espere

E encontrar uma floresta em que cantem os pássaros?

Ou quiçá virá um anjo com asas e boas vindas.

Ou uma bruxa vai dizer que já estava me esperando.

Ou vou despertar dum sono que dormia em outra parte.

Ou visão caleidoscópica dos olhos dalgum inseto

Me façam ver este mundo dum modo tão colorido.

Ou flashes do que fizera para ver se eu me arrependo

Do quanto chamam pecado, de tudo que chamo crime.

Ou veja o meu pai sorrindo com uma expressão, um afago.

Ou fosse no fundo um pássaro que enviasse meu pensamento.

Ou então uma serpente que me amasse tão distante.

Ou o filho de uma tribo com a mesma consciência.

Ou o ardor do próprio fogo queimando-me morto e vivo

Na dor prometida e eterna, que não conhece o alívio.

Ou não vou ter nem memória: nascer novamente infante.

Ou vou vagar numa noite que não conhece o dia.

Ou duma anestesia vou acordar distante

Como se até à morte tudo isto fosse um sonho.

Ou no meu próprio túmulo continuarei pensando.

Ou simplesmente o nada tomasse conta de mim

Como se nenhum sentido o meu corpo concebesse.

Ou o infernal torpor da vibração de cada verme.

Ou uma infinda queda num poço que não tem fundo.

Ou um choque terrível como o da descarga elétrica.

Ou na beleza do mar, num silêncio profundo

Um cavalo-marinho tomasse minha existência.

Ou vou ouvir uma música leve e expressiva

Que só me suscitasse o desejo de sorrir.

Ou vou viver um vôo para cima e sem limites.

Ou os torturadores vão formar o grande inferno

Com ameaças mais agudas do que as da própria vida.

Ou vou ver a eternidade como uma tela de cinema.

Como um céu animado pela história do universo.

Ou vou para o mundo dos mortos e serei então mais um

Entre os seres que temem uma morte ainda pior.

Ou serei Deus no comando da propulsão dos sistemas.

Ou uma árvore antiga pensando em todos que passam.

Ou os amigos finados talvez me esperem sequiosos

Para cobrar pelo tempo em que foram esquecidos.

Ou esses mesmos amigos podem sofrer de saudade

E me ensinar com orgulho o que é a vida de um morto.

Ou partirei para Marte para ver sua geografia

Como se então contemplasse uma arte original.

Ou acordar noutro tempo: num passado remoto

Ou quiçá no futuro, com a mesma consciência.

Ou vou para um submundo de criaturas disformes,

Em que serei uma delas, a quem não existe coerência.

Ou encontrarei meu inimigo, aquele que escolhi

Para que a guerra prossiga em póstuma atmosfera.

Ou paraíso de cores, sons e perfumes e brisas

Sem fruto algum proibido, portanto nenhuma fome.

Ou purgatório maçante me mostrará o inferno.

Ou só o seio de Deus, que há muito tempo eu não sinto...

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