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domingo, 23 de junho de 2013

João Rosa de Castro - Alma Nua


CAMILLE

(à Liliana Liviano Wahba)

 

O seu olhar repousa na infinitude do tempo.

A História não o suporta – envergonhada.

As mulheres o confundem – cobiçosas.

Os homens o renegam – famintos.

Não posso ver suas mãos mágicas,

Mas quiçá imaginá-las.

Ora exatas e definidas

Ora selvagens e vacilantes,

Pelo metal,

Pelo mármore,

Pela argila,

Oscilando majestosas,

Contrárias, ousadas.

Seus cabelos despenteados

Suas rendas esquecidas.

Uma presilha? Talvez

Ou apenas um nó.

De que, Camille,

De que é feita a loucura

Senão dum poder tão austero

Que nunca jamais renuncia?

Que ar é esse que você respira?

Pronta para o vácuo do mundo,

Que outra vida poderia viver?

O leite – derramado.

O velho leite – derramado.

Entre a velha Mãe de Ferro

E uma madrasta distraída

Você geme, e chora, balbucia.

Entre o Pai pelos avessos

Você foge para o amplo

E encontra o destino, ridículo – ingente.

Quisera sentir em francês.

E depois o seu auto-retrato,

A Pequena Castelã,

Jeanne Criança,

A Aurora e a Prece

Devem ter causado pavor

A escultores menores.

Você de perfil parece tão séria

Apesar da fita

Enfeitando seus cabelos.

Mas o olhar é o mesmo,

Que repousa na infinitude do tempo.