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domingo, 25 de agosto de 2013

João Rosa de Castro - Alma Nua

AMOR AO DESTINO

Fiquei irritado com a alvura da pele de Fernanda.
Ela teve horror da minha, encardida.
Seus cabelos anelados me deram náusea.
Ela teve nojo dos meus, sem corte definido.
Achei péssima a sua dicção – sobretudo com aparelho.
Péssima pra ela era a minha: clara, metálica, decisiva.
Sua boca sem contorno, nem sangue nem batom, reprovei.
Ela reprovou a minha, média, trágica, expressiva.
A voz, de uma fragilidade clássica, era sofrível.
A minha – o timbre da independência, a extensão – a desafiava.
Seus olhos arqueados à fronte; felinos, acinzentados – mórbidos.
Os meus, no seu olhar, um problema insolúvel, intransponível.
Ela muda, ensimesmada.
Eu falante incurável.
Alta, acidentalmente, altamente européia.
Eu na estatura tropical mesma.
Em suma, tínhamos tudo para sermos felizes:
Pois acabo de descrever o ódio à primeira vista
Que sentimos eu e Fernanda.