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domingo, 27 de abril de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

EU SOU O CARA!
(a Júlia e Filipe)

Hoje de manhã, a porção nômade da minha alma gritou:
De onde vim? Não vejo pai nem mãe.
A parte poeta respondeu:
Você existe como parte da terra.
A parte cientista replicou:
Você é filho da civilização.
A parte grega caçoou:
Se mata!
A parte herética disse:
Vai ser condenado por ultrajar
Aquilo em que não acredita.
A parte cristã, assustada, gritou:
Blasfêmia! Honra teu pai e tua mãe.
A parte malandra retrucou:
Mas não seria honrá-los
Fazer com que não existissem?
(matar pai e mãe de honra?)
A parte filosófica da minha alma discursou que meu pai era o meu Senhor e que minha mãe era a Língua Portuguesa – ambos demasiado imateriais para que eu pudesse “ver”.
O fator mancebo raciocinou: faz sentido, que chamamos língua-materna a primeira língua do infante. Então Chiquinha é uma máscara da língua portuguesa, assim como o meu pai sempre foi a máscara de Deus. Orfandade, pois, jamais?
O fator placebo meditou:
É! Mais ou menos isso...
O hemisfério “escravo” meditou:
Você é mau!
Mas a porção “senhor” sorriu:

Você é o cara!