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domingo, 13 de dezembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

A PARTIDA


Sentado num trono rodeado de anjos famintos. Com seus olhos cerrados como quem não quer ver o mundo, você vocifera contra os arquitetos da sociedade inconclusa. Fala da mentira destilada qual veneno. Desperta os ouvintes com indignação. Discorda muito, concorda pouco. Faz alusão ao verde das florestas. Você inventa ilhas para entender a solidão a que se propõe. Visita os francos, os anglo-saxônicos, os germânicos; com o pé na sua terra. Que terá dela então levado para os nortes? De que mesmo terá saudade? A sua maior mímica se dá quando respira. E quer ser estátua. E quer ser robô, mas não quer sonhar. Do lado de alguns, você vagueia, diante de muitos, se renega. Cospem-lhe a face os fiéis. Porque você adentra com a marca da arte na face. As montanhas, cujas imagens tomam espaço em sua memória, dão vista ampla para paisagens muito distantes. E você diz: “A loucura é o esboço da dor”. Entre os crimes traz um que é claro. Porque o soldado não podia ter um nome, e a guerra se tornou um fenômeno natural, ganhando lugar em qualquer parte. O imperador sente prazer em perder de seu súdito, sente prazer em ganhar de seu súdito, porque sente prazer em jogar com seu súdito. Você não vê divisão de classes. Aí vigora a hierarquia do inferno. Que pôr amor onde só se vê discórdia é uma prática manjada. Estar quieto no seu canto é a folia mais rara. Volta o tempo com seu nome nas manchetes. Quantos peitos atravessam suas espadas? Seus soldados seus reais, suas princesas ainda andam nos shopping-centers da cidade. Filosofam com você as orquídeas e as serpentes. Os reis entregam suas coroas, os pescadores devolvem seus anzóis, as bailarinas sentam na beira do palco e pensam fundo depois de chorar os amores que perderam. Você é uma sucessão de horizontes. A inocência em você evapora. O espírito ganha forma, peso e cor. Brincar com o curso das águas, com as formigas enfileiradas seguindo seu caminho: o seu passatempo oculto. Apesar de distante você samba. O Z da zabumba é tão repentino, o A das Américas é tão dividido, mas sua presença torna tudo muito uno. O que você busca tanto na sua vizinhança. O seu próprio fantasma ou um exorcista? Ah quanta dúvida você deixa sobre o amor manifesto no ar que você derrama! De que servirá ser herói senão aos que querem a vida? Eis a serventia do que você sente pelo mundo. Você jurou que não tinha um revólver. Mas os seus neurônios eram soldados. Quem mais você impressiona? Que gerações achou que viriam? Deixa para Quintiliana o seu ramal, que ela te liga nas suas noites insones. Estamos no mesmo mundo-pabx. O humano coração ainda sangra como antes. Os impulsos mais esquisitos ainda não são originais. Vejo no seu rosto a negação expressa dos seus filhos. Por que terá sido tão temida sua terra? Você me inspira dúvidas. Depois que inventou o destino, você ficou sem o seu próprio. Anda a esmo, ri a esmo, a esmo chora. Toma o seu lugar entre os imortais e quer a morte. Fica entre os mortais e quer a vida. Parece natural. Enfim, há artifícios que se naturalizam de tão inevitáveis. Andrajos pensam, velho homem. Do meu quarto a você é um salto. Mas rever-te não está inscrito no meu destino. O Olimpo pode seguir a consciência de um homem. Instrumento de manifestação das figuras distintas, você anda lentamente pelos jardins coloridos e perfumados como se o ritmo da gente fosse inalcançável. Duro ofício este de distribuir amores sem poder imaginar o que se tornarão em peitos delinquentes. A sua graça surge, abona-o da urbana produção, da fumaça envenenada, dos robóticos sermões, como o único tesouro que inda resta conservar. A tela da sua cabeça, a sonoplastia do seu corpo, a coreografia das suas células, os enredos que pulsam no seu coração fazem dos seus passos o drama interminável que te assombra. Mas quanto mais você fugir da sua imagem, mais ela vai se projetar nos arredores. Modernamente você vê a semente rebentar num cassino. O seu jogo de palavras inteiras reinando entre as outras tímidas lembra você aí na sua vila, pequeno ou grande e mesmo assim sem resposta. Diga o que você fazia com os pensamentos que explodiam na sua cabeça quando você ainda parecia proibido de pensar.