João Rosa de Castro - Amargo & Inútil




ANNUS HORRIBILIS Será feito quanto substitua a liberdade das ruas, a atmosfera dos bares, uma simples ida ao teatro com ingressos populares. A popularidade dos miseráveis há muito em alta exalta ações que os tribunais de contas abraçam com vários braços e amplos bolsos. O poeta nato manifesta as flagrantes fotografias feitas em suas câmeras viscerais – sometimes true, sometimes foolish – e é ridicularizado. Os negativos são levados por enchentes de cidades tombadas, mentes tombadas. Artesanato, arte descartável, arte clássica, plástica, de clowns suburbanos: arte subordina-se ao princípio da incerteza, da regra cega, de milhões de martelos e cálculos estratosféricos, da tristeza súbita das mulheres e outros tipos de sangue. Quantos elementos serão necessários para convencer um homem-pessoa a esquecer de vez o projeto manhatan ao invés de lançar-se da janela alta? Eu vou plácido por fora, por dentro uma sangria desatada, caminhando e cantando e rangendo os dentes até ao palácio para cuspir no chão ignóbil e distante de tudo que não seja estatiscrático, tecnocrático. Pião, vídeo-games, bolinhas-de-gude, bonecas, pelúcias, carrinhos-de-corrida, ioiôs, bambolês, brinquedos e papais-noéis subjugam-se ao que ser, que comprar, que gastar, que esquecer, que inventar, quem enganar. Quantos milhões de decibéis serão suficientes para que o senhor da mentira ouça uma ária da verdade? Eis a perfeição do mundo: forças do atraso a balas e objetos cortantes para fazer temer, fazer tremer, fazer calar. Estado-e-bandidos-unidos-sociedade-anônima. Olhares continuistas lançam os inconformados num precipício e o big business curte sol na ilha de rostos. This is the world that we created. Muitos beijos e carícias serão necessários para crer em algo que simbolize futuro. É preciso beijar. É preciso que se deixe beijar.

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