domingo, 25 de fevereiro de 2018

João Rosa de Castro - Bis

O SOLAR


Cada renda
Lá de cima,
Cada mão
Que aqui trabalha,
Cada sonho
Contemplado,
O Solar
Possibilita.
Esse chão
Com nossos passos
E as paredes
Conselheiras,
Esse teto
Bem pintado,
E as cadeiras
Que apoiam
São daqui
Um continente.
Universo
Paralelo
De razões
Reencontradas.
Uma noite,
Uma bandeja,
Um olhar,
Uma peleja.
O Solar
Que vivo espera
Nos cabelos
De Francisca.
Miquelina,
Michelângelo,
Me dizendo
Assim: “bem-vindo!”
Venham todos,
Venham sempre,
Ver as luzes
Da cidade.
Venham ver
O dia pronto
E a noite
Assim tão quieta.
O Solar
É paradeiro
Num Brasil
Que já não pára.
Quatro amos
Os regentes
E uma turba
Incansável
São daqui
O bom futuro
Que faltava
Para a casa.
Gente vem
E gente vai
E fica sempre
Na memória.
Bela Vista
Que impera
Aqui na Toca,
No Imprensa,
No Oficina
E seu castelo,
Brigadeiro
E seus romanos.
O Solar
Aqui no meio
Recomeça
A cada instante.
E a turma:
Povo alegre
Que recebe e diz
“Bom dia.”
Imagina
O Solar
Cada vez
Mais habitado.
A nobreza
Dos suores,
A grandeza
Das relíquias
Se antevê
Pelo carpete,
Nos degraus
Dessas escadas,
No sofá
E na cozinha,
Na cortina
E no tempo.
Citar nomes
Para quê,
Se as letras
Todas vibram
No espaço,
Apartamentos,
E no bar,
Lavanderia.
Um solar
É um castelo,
Um castelo
Que antecipa
A visão que
Vem do alto
E que desce
Aos nossos olhos.
O Solar
Aqui já fala.
Se alimenta
De presenças
Vê nos passos
Sua dança,
Mas não dança
Só contempla.
O Solar
É uma festa
E convida
Todo mundo
Para o grande happy-hour
Das estrelas
Que aqui brilham.


BIS

E, de repente, enquanto escrevia Bis, me desligava do antigo Hotel Solar Paulista de tantas aventuras sentimentais. E é em Bis que me despeço, no poema intitulado “Goodbye” e observo que minha relação com o Bixiga foi intensa. Talvez mais ainda porque eu ia para lá como um forasteiro. E conhecemos mais as cidades quando estamos distantes.
Mesmo assim, Bis continuou. Depois da despedida, ainda escrevi “O Solar”, em que faço mais uma exaltação àquele edifício, que se transformou num albergue para divorciados; “Fome de Som”, um poema surpreendente para mim mesmo. E ainda “Reformália”, que me colocava novamente em contato com a vida católico-protestante da Vila Curuçá.
Eu queria ter falado mais, e até continuado com a brincadeira de Zum-Bis. Mas esse corte com a saída do Solar foi surpreendente. Foram cinco anos marcando ponto, lidando com os atores, diretores e dançarinos dos teatros das imediações, lutando naquele embate infindo entre o Zé Celso Martinez Correa com o Teatro Oficina e o Grupo Sílvio Santos de Senor Abravanel. Tinha sido muito movimento para de repente voltar para casa.
Logo em seguida parti para as letras propriamente ditas: fui trabalhar como tradutor, na Fidelity Translations, onde comi o pão que o diabo amassou, mas fiz questão de passar um requeijão, com o qual aprendi muito sobre tradução jurídica.
Já trazia projeto na manga para o próximo livro de poemas. Mesmo assim, parti para Alphaville, onde também fui tradutor, na Avament Tecnologia, e passei por uma experiência diferente.
Foi uma fase muito produtiva aquela do Bis, ainda que interrompida pela saída do Solar. Porém, as letras permaneceram, ainda estava grávido de nove livros em verso, mais quinze em prosa para dar à luz, além de muitas traduções para o português e para o inglês.

O seu autor,
João Rosa de Castro.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

João Rosa de Castro - Bis

CONHECER 

Eu conheci o mistério do vento.
Donde surge, aonde sopra, porque encanta.
De altos picos, de vistas everestianas 
Eu vi que a vida é de subir e de descer.
Vi o alvoroço, o vai-e-vem dos automóveis
E algumas leis que os permitem mover.
E no silêncio de uma tarde radiante
Vivi o insight pra mais ainda inventar.
Tudo é novo, posto que o velho se reveste.
Nada se perde: tudo pode acontecer.
Eu conheci o segredo da miragem
Que na cidade já se faz compreender.
É o meu impulso curioso e ladino
Que quer saber e quer saber e quer saber...
Eu lá no campo percebi que a terra é virgem
E conheci que ainda há muito que aprender.
O feito e pronto aparece no futuro
E o futuro está no próprio conhecer.


ZUM

Zum forma com Bis uma palavra que me é muito cara: Zumbis. Imagine se cada um de nós fosse um Zumbi dos Palmares? Libertários como ele!
O livro traz o primado da criação. Inicia com o poema “Produção Independente”. A escravidão de si mesmo. A mais acertada. A mais democrática das escravidões. O escravo de si mesmo não escraviza ninguém nem se deixa escravizar por ninguém ao mesmo tempo que escraviza a todos e se deixa escravizar por todos. Ninguém mais que Zumbi para ter pensado em algo como isto.
Ainda, o poema “Filtro Cera” diz: “quem tem de excluir, exclui sem saber cores.”. O que disse há alguns dias nas redes sociais: não se pode confundir preconceito, racismo e discriminação com maus-tratos. Isto que a gente preta sofre são maus-tratos. E os maus-tratos são apanágio da raça humana, não de uns ou de outros.
Mas, “Ritual Diário” nos iguala: “Mastigar, saborear, engolir e esperar o grande efeito alucinante”. Numa alusão à fome, que não escolhe classe nem indica se existe algo que lhe sacie.
Ainda, em “Fecundação”: “O meu desejo escreveu o que com os olhos se apaga”. Uma alusão ao que o filósofo dizia sobre como o ouro perde valor quando colocado em praça pública. Muitos sentimentos e pensamentos só têm valor quando não são popularizados.
O “fazer” está bastante presente nesta obra. Não me recordo o porquê da relação entre Zumbi e a produção. Talvez uma referência ao fato de que o engenho de cana-de-açúcar só foi possível e produtivo no Brasil depois que os escravos pretos vieram e assumiram-no. Se não fosse esse fato, nada de Brasil. O preto e a técnica estão ligados pela própria natureza, uma vez que os portugueses faziam tudo para não se profissionalizarem como os pretos fizeram e ainda fazem.
O seu autor,
João Rosa de Castro.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

João Rosa de Castro - Bis

GOODBYE

Deixo o solar com o peito aberto 
E uma tristeza nova.
Mais uma saudade pra minha gama de saudades.
Saio pela porta como quem deixa a mulher prenhe.
Como quem vai comprar cigarros para sempre.
Sigo por esse caminho que já ando sem pensar.
Vou avisando os luzeiros que agora
Nem todo dia me verão passar.
As avenidas, os faróis, o metrô,
Anhangabaú que desço rasgando as Bandeiras,
Vendo a lua, que é a mesma em Salvador.
Enfiando o bilhete, automático como um robô.
E o solar vai ficando distante a cada noite.
E agora já lembra uma escola antiga
Que guarda eterna meu DNA nas carteiras.
Adeus, solar dos meus encantos,
Nunca mais serei teu como agora.
Nunca mais serás meu como foste.
Que a vida fica acesa e a TV deixo ligada no saguão.


CIO DA PEDRA

Com o Cio da Pedra, eu me despedia da vida em família, me despedia dos trabalhadores braçais, dos comerciantes, etc., para me dedicar às letras. Mal sabia que estava sendo mais um “Oi” do que um “Tchau” a todos eles.
A pedra faz referência às pedras de Pedro, meu falecido avô paterno: pai-de-santo, que mantinha pedras pretas enormes em seu congá, nas quais os babalorixás haviam de bater a cabeça antes de começarem as giras.
O cio indicava que a pedra (ou Pedro?) me chamava. A partir dali (início do curso de letras), eu partia para o mais distante. Como de fato parti, ainda que me mantive presente de outras formas.
O centro do livro é dividido com oito poemas dedicados aos filhos de meus pais. Cada um recebe o nome de um fenômeno natural. Assim que temos o arco-íris, a chama, a neblina, a chuva e o outono, o inverno, a primavera e o verão. Todos inspirados em cada um de nós, filhos de meus pais.
A partir deste livro, eu sempre tinha a impressão de que não teria mais tempo ou oportunidade de escrever poesia ou, muito menos, prosa. Parecia que algo ia me limitar os movimentos: quer fosse a morte, ou a dispersão total.
Mesmo assim, continuo escrevendo, traduzindo e promovendo a minha obra. Levo-a a sério como se produzisse o pão, o cuscuz ou a tapioca de cada dia ou como se destilasse a cachaça de cada noite. Não pode faltar no café da manhã nem para esquecer as inquietações.

O seu autor,
João Rosa de Castro.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

João Rosa de Castro - Bis

A VIDA É NOSSA

A tribo não dançou hoje como ontem.
Quer ver televisão com as meninas.
Do teu nariz escorre um ar pesado.
Você engana quantos não enxergam.
Eu com a teia aranha faço laços.
O Pedro com ouvidos de argila.
Fofoca come solto na bastilha.
Um quer sorver o outro pelo nome.
O mundo aprendeu tudo com Dolores.
O que fazer com tudo assim tão pronto?
O que dizer se tudo já vai dito?
O nojo foi virando uma virtude.
A praga, um negócio, uma fortuna.
Que tudo que se diz guarda um segredo.
Tesouro acumulado torna um rico.
O rico pisa sobre o sem segredo.
E o mundo vai seguindo sem sentido.




Fio Terra poderia ter outro título que este ambíguo. Mas, como a arte em si é polissêmica, não há porque não chamá-lo assim.
Fala em equilíbrio, em uma esperança que nem aumenta nem diminui o suplício. Mas uma esperança que move para o ato. Para a ação, para o sentir-se ativo e agente da própria vida.
Pede, do começo ao fim, e a quem quer que ouça, a purificação, a cristalização do mundo, a clareza da própria obscuridade, a purificação do absurdo, e, talvez, o obscurecimento do translúcido, numa urgência de movimentos que não importa quais sejam, desde que sejam movimentos.
Observa que as paisagens se compõem em si mesmas. Os rios se encontram e se comunicam, as águas chegam ao mar. O mundo é um só e estamos todos nele e por ele ligados.
Usa linguagem formal ao lado de gírias, como em: “Vós coniventes e inversos: nóias ou anjos-da-guarda?”, e a ligação de lugares distantes, como em “E a Indonésia e a Líbia sopram vulcões da Islândia.”.
É, portanto, livro repleto de movimento e imagens transcendentais, que me traz muito orgulho ter escrito e teria me deixado menor se não o tivesse feito.

O seu autor,
João Rosa de Castro.

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

HABEAS CORPUS Ó Senhoras, Digam-me as horas. Hei de ir embora. Mas digam-me antes Qual rua seguir. Ó Senhoras, Digam-me as...