domingo, 11 de março de 2018

João Rosa de Castro - Bis

REFORMÁLIA

Regressou para o embalo da ingenuidade.
Saber-se salvo
Purificado, catolicamente sóbrio
Era sinônimo de viver e viver-se.
A personificação desse ser ideal
Era impossível, impossível.
Mas a esposa insistia,
A vizinhança acendia,
As crianças pediam bênção,
Os protestantes oravam tensos.
Ao redor eram apelos e livros sagrados.
Tudo aconteceu numa manhã qualquer.
Como um compacto destino a desenrolar-se.
A persona saiu escondida de todos.
Mas onde quer que parasse
O seu destino era o mesmo.


ADEUSES

Em Adeuses, eu me despedia do mundo mais uma vez. Ou porque considerava os livros anteriores pouco sublimes ou porque sentisse o “rancor da grandeza” diante do que fizera até então.
Porém, debalde; ainda restava inspiração para toda a obra que parecia não ter fim. Sempre uma inquietação me sobressaltava. E eu em desespero só poderia me tranquilizar depois de escrever mais um poema.
Mesmo assim, é em Adeuses que hoje encontro “Paná-Paná”, e a história das borboletas. E, ainda, “O Nômade”, que diz: “Pedir licença para chegar aonde te esperam com horário e algemas.” Parecia já haver lido o livro que leria apenas dez anos depois: Além do apenas moderno, de Gilberto Freyre, dizendo que o time is money vem sendo o grande vilão da vida nos trópicos.
Mas já era 2005. A poesia quase se despedia. A prosa já se assenhorava dos meus poros. Pressentia que o poema chegava ao fim, sobretudo em “Um Adeus”, e depois em “Prata”, mais convincente e a anunciar: “Mais um adeus de chinelas contra o olhar panorâmico[…] e “Mais um adeus entre adeuses de tudo o que jaz esquecido”.
E há também um soneto quase bom: “Exílios”: que termina com estas duas estrofes: Onde há flores, relva, amores que percebam / nesse desterro interno em telas, passatempo / os novos homens que sucumbem aos milhares / senão mormente onde outros se perderam / e marcaram com um pranto e um lamento / para que os novos desviassem seus olhares?
O poema é interessante na forma. Porém, no que diz respeito ao conteúdo, é todo bom: bastante atual e já falava do exílio interno vivido por muitos jovens nas metrópoles de hoje.

O seu autor,
João Rosa de Castro.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

FILOSOFIA TROPICAL A Mário, ares nordestinos, Ditirâmbicas brisas, revigorando a manhã. Passagem livre pelas portas bem trancadas....