quarta-feira, 16 de maio de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

O LENÇO PERFUMADO

Vil serventia do perfume deste lenço,
Que em meu corpo opera vã sinestesia,
Pelas narinas vem e toma a minha mente,
De onde foge e vai bater com o coração.
Por fim cardíaco faz lembrar ser intocável
A pele prenhe que o ostenta pelos ares.
E me fascina o rico lenço enxovalhado
Simbolizando um amor tão impossível.
Até que o tempo surge e deixa só o lenço:
Leva o perfume e então no pano é só vontade.



DIÁRIOS DE MONTANHA RUSSA

Depois eu me empolguei mais ainda com os resultados da prosa. Como um pintor que tivesse passado muitos anos desenhando sombras encontrasse o pincel e as cores.  Desacelerei bastante a poesia – que escrevera, às vezes, um poema por dia. Decidi escrever mais uma reflexão profunda e autobiográfica. Como eu podia acreditar que minha vida, essa experiência tão desprezível (aos olhos de tantos) fosse algo interessante?
Nietzsche: Nesta fase já tinha lido e relido toda a filosofia vibrante do filósofo. Minha psicanalista: já saía das sessões suspirando com o desabafo. Tinha lido um pouco da literatura brasileira, cuja ausência nos primórdios fora motivo de grande frustração. E por mais que eu leia hoje o que há de bom em literatura brasileira, ainda não me conformei de todo por ter lido Lair Ribeiro e Paulo Coelho, nos fins da adolescência.
Esta biografia teria se intitulado Montanha Russa. Porém, quando estava prestes a publicar virtualmente, li em alguma parte que a senhora Marta Medeiros tinha escrito um livro com o mesmo título. Dissuadi-me dele e, lembrando daquela bobagem dos Diários de Motocicleta, inseri os Diários no título, criando por fim os Diários de Montanha Russa. E era assim mesmo que eu me divertia nos parques de diversão: sempre pensando na arte quando me assombrava com os solavancos dos brinquedos. Por outro lado, observei que neste longo livro, com mais de trezentas páginas, a vida se me afigurava desta forma: subia e descia e voltava e caia e se re-estabilizava, etc.
É nele que eu volto para o Brasil-colônia e lavo roupa suja em público. Falo da relação com os meus irmãos, da vida em família, dos momentos de ira e de apaziguamento. Da minha relação tão afetuosa, e, às vezes, tão surpreendente com minha mãe, com quem passo a maior parte do tempo. Dos encontros e desencontros da vida urbana, do calor e da frieza com o mundo, da miséria e da grandeza que é viver a vida.
Como já tinha escrito um ensaio de autobiografia meio que descontrolada, no Santa Maria d’Oeste, decidi-me a adicionar algum método nesta própria. Assim, os acontecimentos que incluo nos Diários de Montanha Russa abarcam um período exato de um ano de vida. Como se recortasse um ano para dizer ao nobre leitor quem eu poderia ter sido nos anos anteriores e poderia ser nos posteriores através da observação daquele ano em específico.
Ainda, no plano da forma, quebrei o modo como se se apresentam as datas e os lugares, criei nomes para todas as cidades: até para a cidade de São Paulo e Rio de Janeiro, numa tentativa de apreender tudo, tudo, tudo – de forma nova.
Mauricio R B Campos, um dos meus veneráveis mestres, leu o livro e disse ser “agradável”. Não entendi muito bem o que quis dizer com o qualificativo. Eu quis que o livro agradasse menos do que surpreendesse. Porém como é insistente, para não dizer “persistente”, talvez tenha se tornado enfadonho, reduzindo aí a possibilidade de que alguém pudesse se surpreender com algo muito extenso ou muito prolixo.
A Doutora Maria Alice Paes tremeu na base, mas escreveu o prefácio, conforme eu pedira. Eu tinha pedido a outra pessoa, que, porém, por ser da família, preferiu não fazê-lo. Mas a médica arriscou transpor os receituários, prontuários e compêndios de psiquiatria e redigiu uma apresentação concisa, porém muito importante.
Ganhei de Mauricio R B Campos o moral para traduzir este pequeno gigante para o idioma inglês, e hoje ele está sendo traduzido para o espanhol, por Verónica Santos, na Argentina; breve poderá, portanto, ser lido também pelos amigos hispanoparlantes.
Sendo tudo assim, aquele ano fatídico dos Diários de Montanha Russa comprovaram que a vida de um brasileiro medíocre também pode ser interessante, mesmo vivendo numa cidade poluída, em vários sentidos, como esta, mesmo atravessando as aventuras da desendinheirança, da guerra interior e exterior dos sentimentos, o tédio de ter de lidar quase totalmente com pessoas da família e do trabalho, mais virtualmente do que na presença mesma, estar só no meio de uma multidão e fazer da solidão um grande carnaval: foi este o livro que me tornou um destino.
O seu autor,
João Rosa de Castro.

João Rosa de Castro - Persona Non Grata

O DIÁRIO Anda por ruas estreitas que dão na avenida. Vê os passantes apressados esperando o sinal. Frisa que sabe onde é norte – pr...