domingo, 6 de maio de 2018

João Rosa de Castro - Amor Grátis

MELANCOLIA

Ser livre e sorrir
Na amplidão de um sonho.
Ser leve e voar
No finito entardecer.

Toda felicidade que se busca é interna.
Lá vai o homem feliz e sem face
Com o seu eu perdido entre amar e não amar,
Na pura angústia de ser não sendo.

Toda existência que se move é eterna.
Ele quer se distinguir de si mesmo
E encontra um outro em si, que acena.

Ele já não pode ir nem ficar.
Sua leitura de mundo é confusa,
Seu silêncio é uma orquestra,
Seu pensamento o seu algoz.

Seu delírio emerge dum reles acontecimento
E ganha dimensão extensa.

Quiçá uma carícia,
Quiçá um abraço,
Quiçá um beijo,
Quiçá um orgasmo
Seja o marco dos seus dias.

Morrerá e será esquecido.
Antes, porém, sofrerá.
Antes, porém, sorrirá.
Antes dará festas homéricas.

De um gozo a outro vai pensar.
E projetar edifícios,
E comandar soldados em guerra,
E derrubar o arquiinimigo
E conquistar territórios.
Tudo às cegas,
Tudo às pressas,
Tudo se repete.

Ser livre e sorrir
Na amplidão de um sonho,
Só assim será um rei,
Pois quando acorda
Se perde,
Se ama,
Se odeia,
Se escraviza,
Não tem nome,
Não tem sangue,
Não tem raça
Não se enxerga sequer ao espelho.



SANTA MARIA D’OESTE

O livro Santa Maria d’Oeste surgiu em 2006; depois da empolgação com o lançamento de Post Scriptum, o qual, como o próprio nome sugere, teria sido o último livro que eu escrevia, depois de uma série de livros de poesia. Nunca tinha imaginado que pudesse escrever em prosa. Tinha versejado desde 1992. Pensava que só sabia fazer verso.
Mas o ano de 2006 não terminava nunca. Depois de Post Scriptum, fiquei pensando que talvez pudesse escrever um desabafo. O contexto era o do Partido dos Trabalhadores no governo, encabeçado pelo então presidente Lula. Nós os letrados estávamos com a corda no pescoço. Quem tinha emprego eram os Trabalhadores de fato e de braço.
Eu estava na transição dos números para as letras. Atuara desde 1990 como auditor de receita e concluíra o curso de letras, sem que quisesse o magistério. Queria, como o nome me induzia, as Letras em si: tradução, revisão e pesquisa. Iniciara o curso de mestrado na USP, com a professora Munira H. Mutran, mas precisara interrompê-lo.
A partir desse primeiro desabafo, todos os livros que escrevi depois representam uma grandessíssima brincadeira. Santa Maria d’Oeste, por exemplo, é o que não me coube dizer nas sessões de psicanálise durante aquele ano. Imagine, pois!
Mas representa também a desmistificação do escritor, sempre envolto em uma redoma de vidro, como se fosse inacessível e transcendental, quando, de fato, é mais um profissional que carece tanto do produto básico da natureza para levar sua vida como um comerciante.
Santa Maria d’Oeste é a revalorização do destinatário do conhecimento. Como se o leitor fosse um médico – o psicólogo que cada um traz dentro de si. E se o verso nos livros anteriores já me poderia ter sido um delírio, a prosa poderia ser mais delirante ainda. O leitor supostamente vive são. Tão são quanto a Santa Maria d’Oeste. Não o escritor, sempre envolto em sua incurável e eterna enfermidade do “querer dizer”.
Traduzi para o idioma inglês, publiquei pela Editora Scortecci e atualmente o livro é divulgado pela Babelcube mundo afora.

O seu autor,

João Rosa de Castro.

João Rosa de Castro - Amor Grátis

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