João Rosa de Castro - Alma Nua


ENYA

- Que me diz da minha estranheza:
- Por quê?
- Que essa música tão suave, fundo para imagens paradisíacas, pode servir para me enganar. Aqui entre os que batem os martelos, cortam o ferro com uma serra. Crianças chorando de dor ou até de fome.
- Não acho. Ela serve para o seu momento de solidão, em que você pode imaginar o mundo que você escolher. Eleva o seu espírito até a surdez quanto ao som que te incomoda.
- Se for assim vou ficar mais surdo do que ouvir. Há tantos sons que me incomodam, neste mundo em construção. Nossa realidade com seus anseios primitivos.
- Ela é a sua pausa para o que pode ser só seu. Embora meu seja o coro, a poesia, o piano, a idéia, a voz que move. As imagens de cada um são únicas. Este mundo é só seu. O modo de perceber a história, de recordar o vivido, de sentir o momento e vislumbrar o futuro, é todo seu.
- Então digamos que eu é que me engano e a sua música é apenas parte do contexto em que isso acontece.
- Tudo pode nos levar ao erro, até mesmo a canção que vem do interior da floresta. Mas o erro também serve para construir o seu mundo. Se se tratar de um equívoco, logo terá o excesso dispensado e esquecido. Se se tratar de uma falha, logo será emendada com o que lhe faltar. Além disso, tudo mais virá a ser perfeição.
- Acho que no fundo eu resisto a assumir o meu mundo, receando desistir de viver no mundo comum. É um absurdo abandonar o mundo comum.
- É verdade, o mundo comum não pode ser abandonado com boa consciência. Mas não há nenhum dilema entre os dois. É como mudar de sala, ou alternar as árvores sob cuja sombra se descansa. É privilégio de poucos amar esses dois mundos com o mesmo amor. O trânsito entre eles não é apenas possível como também necessário. A minha música pode estar presente nos dois.
- De alguma forma, certamente.
- É o que sempre espero, é nisso que tenho esperança.

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