Marcadores

domingo, 26 de maio de 2013

João Rosa de Castro - Alma Nua


MADREDEUS

As suas cordas lembram a altivez do brasileirinho, mas também as cores múltiplas dos sons das harpas. A voz de Teresa se harmoniza com o som dos instrumentos como se uma fosse a extensão dos outros ou vice-versa. Não existe o domínio esperado da poesia. A lógica da linguagem poética sucumbe ao monumento da música quase num silêncio respeitoso em relação a esta. Como se o que mais importasse fossem as cordas (ou sons) vocais da mulher, como instrumento. Fica num plano posterior isto a que chamamos palavra, e num plano anterior a essência da voz da mulher, da mãe, da mãe de Deus, em cujas palavras o significado é inferior ao som que ela emite. Essa gradação é de uma sutileza transcendental: chega a questionar a necessidade da palavra produzida pela mulher, quando ela de fato comunica sentimentos que podem ser indecifráveis por meio dos códigos da linguagem; como, por exemplo, a canção de ninar, que transmitiria o desejo de proteção e de acalanto ainda que enfatizasse os sons vocais ou anulasse por completo as palavras, do ponto de vista da inteligibilidade. A voz de Teresa representa perfeitamente a da mãe de Deus – irrepreensível. Os senhores e sua música transportam o meu espírito a distâncias incomensuráveis, talvez também porque a língua seja a mesma com que eu penso ou porque as nossas histórias estarão eternamente entrelaçadas e esse fato cause uma familiaridade intelectual inevitável, ou apenas porque este é o seu propósito mesmo ante o seu grande público, do qual sou parte. Mas Deus tem mãe. Deus tem mãe.