Joâo Rosa de Castro - Alma Nua

EXÍLIO INTERNO

O pior exílio é o interno
Eis do que muitos fogem.
No seio do lar o descaso.
A intensidade da minha alegria.
A profundidade da minha angústia.
Inédito espetáculo num ensaio.
Eterno preparo para não ser visto,
Tanto quanto o dos distantes amados.
O mais próximo é o mais odioso.
Uma ameaça constante.
O mais distante não causa dano:
Parece falar de outro planeta,
Inalcançável, indiferente.
Mais adiante sou o herege.
Objeto de novenas,
Motivo para eternos rosários.
Credos, paternosters, hail Marys.
Como se a natureza houvesse errado
Em mim como num vulcão
Que desdenha os diabos.
Diabólicos sorrisos.
Como se o soldado-mãe
Como se o padre-mãe
Expiasse pelo crime
De conceber o grande monstro.
A esfinge que devora os homens
Perdidos nos prazeres da inocência.
Sim, exílio interno.
Mais interno do que nunca.
Dum lado a espera
Ou até mesmo o encanto
Do momento tão oportuno
De me expulsar para o meu mundo.
Risos da caricatura:
Um boneco que fala!
Uma estátua que anda!
Um demente que contesta
Napoleães e Platões!
O teste da moralidade!
Ele tem tudo de mal,
Mas ainda cabe nele
Esse contêiner infinito.
Vamos, ainda cabe nele
O nosso lixo atômico.
Aproveita que é estrangeiro
E que não tem passaporte
Para viver no paraíso
De compaixão e miséria.
É o exílio interno
O pior deles, na certa.
Na padaria, pensam em vender o pão.
Pensam em aumentar o cigarro.
Pensam seriamente quando digo obrigado.
Quando ando pelas ruas
Nowhere to go
Eu também fico procurando discos-voadores no céu.
As mulheres neutralizam tão pouco
A rudeza dos seus filhos.
Até parece que os amantes conceberam dormindo.
Sinto-me transformando
Nessa espécie quase-humana,
Tão natural e tranquila.
Mas no exílio não posso.
Sempre sinto que voltarei para a minha amada terra
Que tem palmeiras onde canta – e até dança – o sabiá.
Nunca mais serei popular.
Nunca mais saberei copular
Com saudade das belezas que eu tinha na minha terra.
É tão estranho vê-los competir.
É estranho vê-los jogar bola.
Vídeo-game,
Conversando
Nesse idioma estranho,
Programando o futuro,
Acreditando nele piamente.
Os meninos e os homens afirmando uma força.
As meninas e as mulheres preparando a maquilagem.
Os meninos contando dinheiro
Pras meninas dando mamá.
As famílias nas ruas falando mal das famílias
E das famílias das outras famílias.
Cada qual se sentindo a mais nobre.
Todo mundo tem medo de ficar sem amor.
Antes mal acompanhados do que só:
A solidão faz um medo medonho.
Todo mundo tem medo de ficar sem a grana.
Todo mundo tem medo de ficar sem a fama de bom.
Os ruinzinhos por natureza se juntam
Em grupinhos muito pequenininhos.
E os bons, a grande maioria,
Não lhes dá muita atenção.
Eu até quis me juntar aos ruinzinhos,
Mas eles não sabem que o são.
O exílio é duro
Como a doce rapadura...
É preciso mostrar alguma dor.
Uma fraqueza qualquer
Para passar pelo portão.
O alívio é palavra proibida
O prazer de qualquer um uma blasfêmia.
Sexo só para procriação
Ou grana quando ela falta.
É tudo técnico:
Beijo e puxado,
Puxado e filhos,
Filhos e dinheiro,
Dinheiro e cerveja,
Cerveja e silêncio.
Sinuca e dominó.
Na afirmação dos homens – axé e forró,
No desespero das mulheres – forró e axé.
Rock ‘n’ roll para afetar rebeldia
Sem saber contra o quê.
Arte? Arte!? Arte!!??
Não! Não!! Não!!!
Bingo. Bicho. TV.
Pura diversão.
Conversas, muitas conversas com palavras.
Camas, muitas camas com lençóis.
Um filme! Um filme!
Depois de tudo – dublado.
Depois de tudo – legendado.
Depois de tudo – esquecido.
Os cachorros latem no exílio.
Os gatos miam no exílio.
E as pedras se encontram.
No domingo fico saudoso do ócio.

O melhor exílio é o interno.

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