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domingo, 16 de fevereiro de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

POEMA SECRETO

(“Chega de tentar dissimular e disfarçar e esconder o que não dá mais pr’ocultar...”)

Agora ela era a heroína
E seu cavalo não dizia nada.
Seu caubói perdido,
Qual o amante no primeiro grande amor,
Expulsou-a do espetáculo
Certo de que a trocaria,
Naquela tarde imensa,
Por uma tiete qualquer.

Não podendo demonstrar,
Forçada a esconder,
Suas lágrimas copiosas...
(Mais uma vez!
Mais uma vez, meu deus!)
...ela teve a coragem
De transformá-las num doce sorriso
E traduzi-las, depois, numa imensa tempestade,
Que despertou o caubói no meio da noite.

Ele procurara-a contrito entre as gentes
Que o ouviam extasiadas.

Mas a heroína negara-lhe o brilho e o perfume – havia partido.
Talvez para mais tarde,
Talvez para nunca mais.

Parecia que o chão do palco lhe faltava.
Parecia que em tudo o que dissesse mentia.
Faltava-lhe a saliva pra dizer.
Teve de imaginar a heroína ao seu lado, atrás de si, diante de si, pra fazer um grande show.
Imaginar apenas...
(Mais uma vez!
Mais uma vez, meu deus!)

...Quantas vezes teria ela chorado assim?
Quantas vezes ele ter-lhe-ia imaginado assim, nas tardes comuns?

Mas o noivo da heroína
Era o caubói –  além d... –  uma tragédia, enfim,
Silenciosamente patética.

Embora eles tivessem emergido do mais profundo,
Para aprender a amar,
Para aprender a viver,
Tiveram de abandonar,
Às pressas,
O amor mais verdadeiro e vívido,
Como se fugissem do vulcão,
Pela primeira vez, ameaçando,
Com uma erupção devastadora.