João Rosa de Castro - Flores do Pântano

HARDWARE, SOFTWARE E RAPADURA

O astronauta da periferia
Sempre abandona o lar.

O astronauta é hardware,
É software e rapadura.
Vive juntando Nietzsche e Axle Rose,
Incitando beijos impossíveis.
Nunca fala de namoradas,
Seu negócio é coturno e crucifixo.
Esteve em Marte ainda ontem
Pra instalar um engenho de garapa.
Nunca se sabe de que gostam os marcianos.

O astronauta de Perdizes
Conhece o cortiço e a favela.
Sempre abandona a mãe
Pra ver se ela se apaixona, com saudade.
Chega súbito, de madrugada
E entra pela janela.
Quando tudo está trancado,
Dorme em cima da casa,
Contando as estrelas no alto
E soltando gases pros que estão embaixo.

O astronauta do Belenzinho
Só faz amigos perdidos.
Quem quer que se conserve
Odeia-o à primeira vista.
As raízes da escória
Cresceram nele todo.
É o avesso do avesso do avesso.

O astronauta da periferia
É mais prático do que o homem mais raso
E mais intenso do que o mais profundo.
Sai de casa num foguete
E volta de bicicleta.

O astronauta da periferia

Sempre abandona o lar.

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