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Mostrando postagens de Março, 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

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AINDA HÁ POUCO      (à Cristina)
Ainda há pouco, O chão da rua não reconhecia os seus passos, As flores do jardim opulento zombavam da sua sombra.
Ainda há pouco, A lembrança de um sonho tão lírico, tão intenso, tão andaluz Assaltava a sua memória exausta, Com vielas, caminhos tortuosos e tudo mais que te fizesse distante.
Ainda há pouco, A sua pele – alva epiderme – coberta pelo negro do tecido desprezível, Não se notava, ninguém adivinhava – você parecia invisível.
Ainda há pouco, O relógio chamava atenção com seu tique-taque em silêncio – inexorável. O Tempo triunfante ria-se do seu movimento humano, apenas humano.
Ainda há pouco, Seu coração esperançoso era o seu único companheiro, A espalhar por todo o seu corpo o líquido tão escarlate, tão vital, mas você quase chorava.
Agora, Até mesmo o mais ínfimo fio de cabelo dividido Faz parte do brilho da rica cena que encanta os sentidos mais vulgares.
Agora, Até mesmo seus tornozelos expressam uma beleza sem par, Explodindo com seus pés todo o espírito ao ch…

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

O ASSALTO
Tudo o que eu possuo e o quanto admiro
Eu arranquei ferozmente das garras do amor. Tudo o que sei e o que ignoro.
O amor guarda ainda atrás de si tesouros infinitos, Porque não é visitado por muitos. Nós, que conhecemos seus caminhos turvos, Que avançamos por entre seus escombros, Pisando em ratos vivos e mortos e fétidos, Tateando as paredes em lodo, Tapando as narinas dos odores mais subterrâneos, Voltamos cansados, Mas abastecidos de coisas sublimes, Brinquedos jamais inventados pela raça humana, Animais que comunicam segredos inimagináveis. Minha vida é uma fábula E a loucura é um pesadelo passado e esquecido.
Tudo o que abandono e o quanto renego, Eu arranquei, como um ladrão, do seio do amor.

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

OS DEUSES ENFASTIADOS
Lentamente
Os frutos aguardam o outono
E os pensamentos a robustez do meu coração.
Lentamente As imagens que vejo se transformam No que meu olhar busca. Sinto-me rejuvenescer rindo da própria fortuna. As pessoas me vêem como um ente de rara presença.
Lentamente Os carros ficam mais velozes O povo se atropela nas calçadas estreitas, Os manos dançam bombados, cheirados, extasiados, nas raves mais nervosas ao luar. As minas copiam afoitas os gestos das melhores E a beleza mais uma vez se oculta na coletividade.
Lentamente Giram as bobinas dos jornais, depressa e mais depressa. As operárias rasgam o frango aos milhares em uma única hora.
Lentamente
O mundo visto à distância torna sonolentos os deuses enfastiados.