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domingo, 16 de março de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

AINDA HÁ POUCO
     (à Cristina)

Ainda há pouco,
O chão da rua não reconhecia os seus passos,
As flores do jardim opulento zombavam da sua sombra.

Ainda há pouco,
A lembrança de um sonho tão lírico, tão intenso, tão andaluz
Assaltava a sua memória exausta,
Com vielas, caminhos tortuosos e tudo mais que te fizesse distante.

Ainda há pouco,
A sua pele – alva epiderme – coberta pelo negro do tecido desprezível,
Não se notava, ninguém adivinhava – você parecia invisível.

Ainda há pouco,
O relógio chamava atenção com seu tique-taque em silêncio – inexorável.
O Tempo triunfante ria-se do seu movimento humano, apenas humano.

Ainda há pouco,
Seu coração esperançoso era o seu único companheiro,
A espalhar por todo o seu corpo o líquido tão escarlate, tão vital, mas você quase chorava.

Agora,
Até mesmo o mais ínfimo fio de cabelo dividido
Faz parte do brilho da rica cena que encanta os sentidos mais vulgares.

Agora,
Até mesmo seus tornozelos expressam uma beleza sem par,
Explodindo com seus pés todo o espírito ao chão.

Agora,
Seus dedos, suas mãos, seus braços, o peito e o corpo
Inspiram o desabrochar das mais belas, das mais raras flores da primavera.
Seu peso não pesa no mundo, não fere a gravidade, como se você flutuasse.

Agora,
Tudo em você resplandece, qual sol iluminando planetas.

Agora,
Você está dançando...dançando...dançando...