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domingo, 20 de julho de 2014

João Rosa de Castro - Flores do Pântano

PENSAMENTO-BOA-ESTRELA

Eu não tenho nada para dizer.
É esse silêncio atroz que me assalta o peito.
Vou passivo ouvir uma canção ou outra.
Um fantoche do tempo e do vento.
Leve como um sono fugidio.
Mas, para dizer: nada.
É triste chegar em definitivo na desventura.
É triste e lúcido renunciar à vida.
Quando tudo está perdido, não existe nenhum caminho,
Pois nenhum destino me invoca.
Estar aqui a espera do pensamento que moverá o meu corpo.
Um chamado para os ouvidos ou os olhos
Traz em si mais um convite oco.
Mais alguém surpreso com o que há muito não me surpreende.
Só me resta o pensamento vindouro,
Trazendo as cores da próxima tela,
Os endereços que meus pés ainda hão de pisar,
As palavras que ainda hão de convencer.

Eu não tenho nada para dizer.
Os homens fogem das tempestades,
Passam apressados e afoitos,
Ainda procuram o graal de seus cavalos,
Ainda aventuras e o desconhecido distante.
Mas, o que há de mais oculto sempre jaz no próprio peito.
Os eremitas sentem perder vida no estio,
Os cavaleiros choram saudades na chuva.
O vazio do ser invade a todos.
Resta o meu pensamento-máquina
Que ainda não cabe em minha mente.
Talvez seja a grande morte,
Talvez o início de uma vida.
Ó, dúvida minha que me alimenta a esperança,
Onde andará o óbvio que não seja num punhal, num tiro?
O calabouço das consciências que saúdam fartas
Está perdendo os matizes e pondo insanos os homens.
Que dizer quem não pode ser herói?

Eu não tenho nada para dizer.
Meu grito emudece no meio da garganta:
Acorda meio mundo e meio mundo dorme.
Mundo, mundo, sonâmbulo mundo,
Se meu nome fosse Raimundo, eu seria um teorema
E não teria os pés no chão.
Espero meu pensamento-boa-estrela.
Tenho fé no meu pensamento apenas,
Rei de revoluções que nunca foram lutadas,
Certeza que ninguém assegura,
Sem preço pré-fixado,
Sem hora para chegar.
Tenho fé no pensamento

Meu e dizendo meu nome: João.