Marcadores

domingo, 17 de agosto de 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

O LAÇO QUE ME ATAVA



Eu nunca bailaria tão sozinha.



Fora horrível aquela noite – um abismo.



Sentia-me a esfinge com o enigma – ali, decifrado, decifrado.



Eu chorava de lembrar.



Não, Núbia! Não, Rachel! Bailem comigo!



Eu bailava por amor às gentes.



Eu bailava por amor aos bichos-grilos e aos não-bichos, eu bailava.



Achava que ia parar.



Aquela que não merecia aplausos.



Ia me afastar e me afastar.



Não queria que vocês me elogiassem
E me pedissem para continuar.



Mas eu era assim tão dependente,
Só bailava se visse bailar.




Parava cedo: cento, cento, cento e oito.



Era meu pé, pois então sentia



Prontidão e mãos no solo.



A vitrine e eu dentro.



O aquário no escuro, nos escombros.



Era a vida que pulsava,
Queria a sauna morna longe, longe, longe e intensa,



Via então o alicerce pronto.



Era elétrica demais
Para bailar tão sozinha.


Eu queria que fingissem que não viam
O meu olhar, o meu olhar de medo.



Era concisa e dúbia.



Queria o laço que me atasse,



Eu viera da infância desse jeito:

Pedia água mesmo que sem sede, e a fauna…