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domingo, 7 de dezembro de 2014

João Rosa de Castro - O Sonho de Terpsícore - Com Prefácio de Carmen Liz Vieira de Souza

RACHEL ÀS VEZES SE REBELAVA

Não me queiras malbaratar as sutilezas do monumento humano que é meu bailar; não bailo involuntária ou inconsciente como respiro, ou por acaso, como as periguetes rebolam; não é articular-me como se digerisse, como se sonhasse, como se morresse. Não malbarates um monumento humano, que é assim humano, assim monumento, pois age no mundo tanto como qualquer monumento anseia como quanto o que há de mais humano acomoda, assimila, devaneia – bailar não está possível para sequer uma fotografia, para uma película inteira, tampouco para a tinta e os dedos de um reles poeta; bailar não se malbarata, não se compara; não se vende abaixo nem acima de custo, nem com prejuízo, muito menos lucro injusto; bailar não se emprega ou se gasta inconvenientemente; não se dissipa, não se desperdiça.
Não me venhas desbaratar as nuanças do panteão clemente que me são os ritmos dos movimentos; não me movo independente da minha vontade ou na emergência de viver; sequer fortuita como uma perua galinha saracoteia; são se trata de unir partes do meu corpo como se macerasse rochas no estômago, como se onírica, apontasse.

Estou para não me alcançar nada o mérito – talvez o silêncio me pague, ou as andorinhas de abril!