Marcadores

domingo, 1 de março de 2015

João Rosa de Castro - Paisagens Oníricas - Com Prefácio de Olga Maria Gonçalves

ODE À AURORA
                      (à Maria Ferreira Silva)




Se eu fosse uma mulher, seria como a Aurora.



Diria que tudo ao nosso redor está uma pouca-vergonha;
Tudo é uma ignorância,
Tudo é hipocrisia,
Tudo é privilégio de poucos;
Ninguém tem responsabilidade.



Se eu fosse uma mulher, amaria como a Aurora.



Devoraria,
Maltrataria,
Acariciaria,
Condenaria,
Chamaria para dentro de mim e expulsaria de dentro de mim.



Se eu fosse uma mulher, mudaria como a Aurora.



A cor das paredes,
O caminho para casa,
Os móveis,
As profissões: mesmo que me rebaixasse,
A música que ouvisse – mesmo que só andasse com as multidões;
Desde a arquitetura da minha calçada – até a arquitetura da via-láctea.



A Aurora é a Liberdade guiando os homens.



Se eu fosse uma mulher, desejaria como a Aurora.



A aura dos homens e a sua companhia desprezível.
Um dos netos,
Um dos filhos,
Um dos irmãos,
Um dos genitores,
Um dos arvoredos, dos copos, dos chás.



Se eu fosse uma mulher, riria só como a Aurora.
Uma risada patente,
Uma desgraça muito alheia,
Uma simples piada no vídeo,
Sem me importar, sem humor-negro – com inocência.



Se eu fosse uma mulher, rezaria como a Aurora;
Com as mãos para o meu “Deus”, que ninguém visse,
Que ninguém conhecesse.



Teria, como a Aurora, um “deus” único,
Exclusivo para mim.



Que me sussurrasse tudo ao ouvido como canção de ninar nas épocas de bem-aventurança
Ou como trovões no meio da guerra, para que eu corresse, gritasse, avisasse a todos sobre o perigo.



Se eu fosse uma mulher, me vestiria como a Aurora – nem virginal nem periguete.



Faria, como a Aurora, uma surpresa sempre.



Como se me casasse a cada dia com o mundo.



Ah se eu fosse uma mulher!



Seria uma eterna Aurorinha.




Admirada do esplendor da grande e amada Aurora…!