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domingo, 10 de maio de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

ILÚDIO


Sem forma e solto
Nada há que com meu corpo se identifique.
Sou uma ilusão quase binária – quanta.
Mas preciso me descrever para mim mesmo.
A invisibilidade não basta.
A sutileza não alcança o meu nome.
É preciso saber que eu me movo no espaço,
Num dado espaço.
Porém ainda não sou célula.
Por enquanto fluo nos canais
Dum adorável playground
De peças firmes e cinzentas.

Nem sempre se almeja transformar-se
Na minha condição, eu ficaria eterno e feliz.
No entanto a fatalidade me torna outra espécie
E outra espécie e outra espécie.
E a cada etapa disso que evolução chamam,
Vou-me acostumando com espécies irmãs.
Tudo, na realidade, se acomoda e adapta.
Vou vendo os símbolos ao meu redor
E, por fim, participo desse movimento involuntário.
Um caos. Um tal sentir-se cair e erguer-se de um modo cego.

Sem certeza e apto.
Em qualquer instante, ganharei outra consciência.
Uma liberdade que intensa deixa.
Eu que sucumbo e sinto.
Sentir. Rolar.
Gota de orvalho lenta na dada e limitada pelo espaço pétala.
Parece que por trás um sacudimento empurra e pára quando tento descobrir o que sacode. Eu sou sacudido.
Às vezes tenho a impressão de roçar a mesma saliência que já roçara.
Não tenho certeza alguma. Apenas desejos fortuitos.

Suspenso e malabarista fico.
Continuo numa jogação sem respirar; sem morrer, no entanto.
A presença disso, que obstáculo dizem,
Não me impede de vivenciar a abundância do
Ser
Quase nada aqui me dá orgulho e não me dá vergonha.
Deixa ver de que se preenche com coisas alheias.
Tudo de uma suave lentidão que não se vê.
Nem na paciência da compacta água que para si tudo retém.
A ordem dos acontecimentos não me cansa como pressinto vai cansar.
Por enquanto o segredo se mantém.
O futuro surge como uma rocha e se mantém.
Outras particularidades da vida vão-se achegando e me tomando também.
A mentira, a verdade. Concretamente protestando cada uma para si. Achar.
Assim, eu vivendo semi-macunaimicamente, o Deus chega.
O que acontece quando o Deus chega?
Uma proposta interessantíssima para eu ser gente.
Gente?

Gente!