João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

PRELÚDIO


Toca todo mundo,
Toca arrumar carro,
Toca o Deus querer
Que eu seja gente.
Toca acreditar que eu preciso.
Está na hora.
Demorou! Demorou!
Toca subir, descer
Ruas e passarelas.

Eu não sei o que é isso.
Eu não vi, não vejo.
Não ouvi, não ouço.
Não senti aromas, não cheiro.
Não comi, não como.
Só senti – sou quase corpo.

O Deus explicou;
O Deus trouxe telas;
O Deus exibiu diagramas em braile
Para ir me convencendo,
Para ir-me caçando,
Para ir me-rompendo.

Toca aparecer astronautas,
Flutuando sem medo,
Cavalgando em jegues
E rinocerontes.
E espalhando poeira.
Eu sem saber,
Sem desespero,
Com desprezo, não entendia.

O Deus dizia “Demorou!”
O túnel claro e rijo de paredes
Com cerdas aparentando samambaias azuis.
Tudo era dito no silêncio dos toques.
Na boca me puseram e eu girei.
Espiral! Espiral!
O tempo é espiral!
Eu não sabia o que estava
Acontecendo no playground!

Espiral! Espiral!

Maracujá e chuchu!

O tobogã sem destino
Tinha destino em pessoa!

Espiral! Espiral!
Zona norte. Zona leste.
Passavam lugares embaixo de mim.
O túnel era longo: almost endless.
E tudo ficou para trás,
E tudo na boca distante:
A promessa,
A jura,
A mentira,
A verdade,
Os astronautas
E o Deus.
Dali a pouco eu ia ser ser.

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