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domingo, 1 de novembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

A ANTENA

O fio elétrico em curto
Deixou a fórmica manchada.
Os dedos de Luciana
Traziam anéis selvagens.
O relógio como sempre
Dava o tempo com os ponteiros dele.
Sempre apareciam colunas.
Sempre despontavam árvores
E os postes rasgavam as calçadas.
Os pés da mesa.
Os puxadores dos armários,
Os parafusos.
Paisagens minhas.
Os retratos altos, distantes da minha cabeça.
A ponta da faca.
A ponta do prego.
A ponta da mesa.
A ponta do pão.
A ponta do lápis dizia tudo.
Os cabelos elásticos
De Luciana cheiravam a eucalipto.
No rádio Elis cantava e dizia.
No rádio a Clara sambava com as ondas.
E sua voz rodava debaixo daquela agulha.
Os Bitous, Excelcior, o fanque – Vitrola.
Sons da vida.
Tons do mundo.
A brega canção.
A briga de amor.
Ninguém tinha tempo pra filosofar.
Uma guerra rondava os corações ao meu redor.
Mas tão disfarçada,
Mas tão mascarada,
Mas tão incansável e sutil
Que eu via, mas não podia provar.
A agulha que furava o pano.
Os garfos nas mãos eu via.
As unhas nem sempre pintadas.
Uma ameaça.
Uma força me dizia:
“Você vai ficar sem nexo.”
O nexo em Luciana eu não via.
Luciana parecia sóbria
E dizia que eu também um dia
Ficaria assim vazio.
O medo tomou meu espírito.
A compaixão se apossou de eu.
Ela foi roubada,
Mim também será.
Com ela ficou o passado de tragédia.
Comigo o futuro assustador.