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domingo, 15 de novembro de 2015

João Rosa de Castro - O Erê - Com Prefácio de Rosângela Rodrigues Ferreira

O OUTRO


Anhanga está no meu ventre
Com cheiro de fumaça sã.
O que vou fazer da minha vida
Com o peito cheio de caridade?
Lá vem Anhanga bem vindo,
Lá vem Anhanga pro mundo.
O mundo vai ver Anhanga,
E a mim não vai mais viver.
Anhanga vai deglutir-me.
Atávico, fugirei.
Minhas mãos nos seus cabelos.
Seu corpo no meu colo.
Seus pés pisando-me a terra
De andar. Como vou viver?
Fingindo que o venero?
Lá vem Anhanga saber.
Se ele tornar-se eu
E eu tornar-me ele,
Anhanga e eu seremos
Insustentáveis no tempo.
Daí nossas léguas andadas,
Daí nossas veias em sangue
Virão na memória dizer
Que na mente dum pai há dois filhos:
Um deles é preciso de viver.