João Rosa de Castro - O Cio da Pedra

NOVEMBRO

Eu tenho data para comemorar.
Néctar para sugar.
Porém, de mim se afastam;
Querem me tornar também uma máquina sobre-humana.
E eu me fecho.
Eu sinto tristeza.
Eu insisto em ser gente.
Mostro meu rosto molhado:
Lágrimas que ostento.
Faça, mundo, o favor
De me deixar na minha paz.
Deixe que eu vá
Com minha liberdade quadrúpede.
Se o meu coração atrofia,
Se o meu moinho não gira,
Se meu oceano é sem onda,
É porque quero me apartar.
Assim, não insista em me amar,
Não me traga alianças ou pactos,
Não me pregue mentiras,
Esqueça-me.
A minha estupidez é ladina demais.
O meu olhar tornou-se palavra.
Meus gestos tornaram-se palavra.
A minha fortuna é a minha palavra.
Tolere-me. Tolere-me. Tolere-me.

Eu tenho data para me emocionar.
Boca para beijar.
Porém, de mim dependem:
Querem-me tornar também uma estátua viva.
E eu desafio.
Saboreio a vitória.
Persevero em serpentes.
Mostro a fronte molhada:
Suor que ostento.

              
Faça, mundo, o obséquio
De me deixar no meu mundo.
Deixe que eu siga
Na minha condicional prisão.
Se a minha fala ironiza,
Se o meu relógio termina,
Se o meu estado condena,
É porque é hora de me entregar.

Então, não pense em me esquecer.
Não me apresente inocentes.
Não dissimule harmonias.
Enfrente-me.
A minha ignorância é humana demais.
O meu olhar se tornou pedra.
Os meus gestos se tornaram pedra.
A minha fortuna é a minha pedra.
Observe-me. Observe-me. Observe-me.

Eu tenho data para comemorar!

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