João Rosa de Castro - O Cio da Pedra

A CHAMA

Eu não fui o seu mecânico
Porque se eu tomasse um carro,
(um veículo quebrado há anos),
Até hoje nele eu estava
Conhecendo seus metais
E com as peças conversando.
Eu não pude o seu doutor
Que a pessoa adoentada
Ainda hoje eu curaria
Trataria e sarava.
Uma, única, a mesma: sempre.
Eu não pus a mão na massa
pois nas mãos me tem espírito.
Fazia viagem no trigo
Faria saber a origem
Da água que dava a massa
E nunca mais largaria
A bendita da massa.
Eu não fui o seu poeta
Que se eu era fazia um poema
Tão longo e escandinavo
Que tuas retinas cansadas
Render-se-iam sem ler.
Eu não fui o seu herói
Que antes foi você o meu.
E herói que salva herói
Merece silêncio e janela.
Eu não fui a sua esposa
Que se sim eu dava filhos
Tão altivos e belos
Que tu me odiarias
Por lhe fazer tão feliz.
Eu não fui o seu universo
Que você merece plurais
E a sua veia o sangue
Dos mais pios ancestrais.
Eu jamais o seu soldado;
Que andaria sem guerra.
Sua paz é mais soberana
E o infinito alcança.
Eu não fui sua vergonha
Posto que já tem de sobra
Se eu fora você estava
Trancado lá em Viçosa.
Tampouco o seu peregrino
Pois tem os seus próprios pés
E eles lhe sabem mais
Do que os anjos: os dez.
Eu não fui o seu sacrifício
Que toda a sina já-se foi.
Restou-nos a esperança
No fundo da funda caixa.
Se há madeira e perfume,
Se há cachimbo ou haxixe:
Verá com os próprios olhos
Mas de mim senão o óbvio.
Eu fui o seu pensamento.
Eu fui de ânsia o momento.
Eu fui a palavra ampla.
Eu fui até um tormento.
Mas houve manhãs e tardes.
E há senhores e mártires.
Há pedras que exalam cheiros
E outras que dão vontade.
Eu fui o seu grão silêncio

Eu fui a sua verdade.

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